Quarta-feira
Mai222019

Peso-pena

Dr Askhens Tudorow é um astrônomo inglês. Ele, como todo cientista, vive no mundo da lua e seu objeto de estudo sempre foi nossa solitária companheira prateada. Acontece que Dr Lua, como vamos chamá-lo daqui para a frente, detectou estranha anomalia na órbita de Selene, certo dia, ao abrir seu espectrômetro de massa quântica, que mede pequenos desvios gravitacionais e os compara com micronésimos de segundo no tempo que a luz se atrasa quando vem da Lua à Terra.

Blue Moon (seus alunos o acham maluco) deu de dizer que, se seu aparelho estiver certo, a Lua tremeu com certo impacto ocorrido há algumas semanas; como este impacto não foi visto, logicamente ele acha que o tal tremor se originou no lado que nunca se volta para nós, o Lado Oculto da Lua.

Dr Lua, é claro, tem seus fetiches como todo homem normal. Ele vez em quando olha uma vizinha com um seu telescópio que permite ver até a etiqueta do lingerie que ela usa, imaginem os detalhes. Quem se habituou a esquadrinhar as crateras de uma lua morta, o que não fará com montes de Vênus tão próximos?

Seus alunos dizem que, quando a Lua sobe os montes, ele desce à Terra e nunca se ouvem tantos ladridos quanto nestas noites onde a solidão de seu telescópio se banha da serenidade suspeita de uma lua de sangue. Juras há que já o viram caminhando nos campos áridos com olhos estrelados de paixão e ávidos de prazer e dor.

Voltemos à Terra e às tais mudanças do Satélite mais falado do Sistema Solar. Segundo Dr Moon (como as mocinhas o chamam com certo charme, porque tem seus encantos tal esquisitão), os tremores começaram e terminaram em segundos, o que indica uma coisa massiva e pontual. Como pode ser se nada massivo e pontual foi visto vindo à Terra? Ou não? Teorias conspiratórias juram que houve um pouso lunar secreto no Lado Oculto da Lua...E não foram chineses heróicos nem russos loucos por petróleo ou urânio. Foram seres que já não existem entre nós, talvez titãs disfarçados que caminham entre nós feito gigantes; eles fazem academia e tomam enormes quantidades de café e anabolizantes. Passam por tolos, mas se você os vir conversando, vai ver que de tolos não têm nada: Já estão entre nós os selenitas.

--Ô Mano, ó, é nóis!
--Mano, é pá da moleira, é pá.
--Já calculou hoje, mano?
--É pá, já retirei as coordenada, mano; fator é cinco, mano, rotação é deiz!
--Da hora, mano! Converteu o fator quinze pela multiplicação do Log?
--Da hora, mano! É nóis!!
--Então, aplique o inseticida logo, mano, senão os piolhos descobrem!

Eu não tenho nem idéia do Log da Hora, mas é códice secreto deles lá, talvez combinando um desembarque para acabar com os insetos que, lógico, somos nós. E se você notar bem, esses grandões nem parecem humanos, mesmo. Vivem lá no mundo deles, bufando e respirando, preparando-se...Para o quê?

Acontece que Dr Serenity (apelido carinhoso de amigos dele) já viu e anotou tudo, e vive no mundo da Lusó eu sei, porque, se eu não fosse um deles, não saberia de nada.

Vocês me desculpem, mas vou malhar mais um pouco, porque a gravidade maior da Terra machuca meus ossos e preciso reforçar a estrutura mais do que nunca; Vai uma maltodextrina aí??

--Mano!!! É nóis no DNA!a mesmo; sabe a cor da etiqueta dela de longe e ela já sabe o número de seu telescópio; no entanto, nem a sirigaita, nem Dr Blue, nem os malhadores, nem os alunos mal-agradecidos, nem Mary Lou (a gata do telescópio) sabem que o que acontece do Outro Lado da Lua, nós nunca saberemos ao todo e tal pouso, se existiu, foi um fato não isolado; nem eles imaginam que a Lua é oca por dentro e abriga enorme base militar de uma raça muito antiga, que construiu as pirâmides e observa nossos passos rumo ao abismo desde sempre, depois que o mar engoliu Atlântida.

Isso,

Isso, só eu sei, porque, se eu não fosse um deles, não saberia de nada.

Vocês me desculpem, mas vou malhar mais um pouco, porque a gravidade maior da Terra machuca meus ossos e preciso reforçar a estrutura mais do que nunca; Vai uma maltodextrina aí??

--Mano!!! É nóis no DNA!

 

Quinta-feira
Mai162019

A Escala de Richter

Estou um pouco tonto. A sensação é estranha, bato os pés no mundo e o mundo me rebate desconstruindo os movimentos; Todo o movimento é relativo, eu sei, assim como o tempo do Ser no mundo. Ser no mundo. Ser, esse espaço profundo que temos de nossas ancestralidades, desde as savanas africanas às sondas em Marte. Temos os nossos complexos lá no fundo, na alma, nos corpos cheios de cicatrizes herdadas lá de trás, das cavernas e agora das covas em que nos enfiamos antes de habitar por eternidades cavas mais absurdas.

Eu estou tonto com todas estas instabilidades que povoam nossa casca cósmica; de cá para fora, minha casca indômita e pouco abalada tem a sensação de que a cobertura nossa que nos faz únicos sofre. Com isso, todos sofrem suas marcas, os sinais de que a cobertura de chantilly do bolo fez mal se acentuam. Têm razão aqueles que vêm dizer a mim que estou tonto, porque eu os vejo de lado, deitado que estou sem ter percebido.

--Que fazes aí, deitado assim?
--Não me levantei ainda de meu esplêndido berço!
--Está mais que na hora, hein?
--Tens razão.

Mas a tectônica placa dita estável aprofunda seus rumores e a tontura que esgarça meus sentidos se agiganta e eu, que não passo de um anão, tento pensar que poderia ser gigante; custo a crer que acordar é preciso. E a luta que se aproxima me faz ter comichões de Ser-em, sendo o que sou, mais amortecido porém consciente de que esta posição, embora estável, é a da impermanência.

Vamos todos acordar, antes que Richter nos abale.

Quinta-feira
Mai092019

O Carro dos Sonhos

Santo era o seu nome; ele vivia perambulando nas ruas, conseguindo uns trabalhos aqui e outros acolá. Não tinha esposa nem filhos: Tinha os cachorros que acompanhavam fielmente seu dono, no carrinho aonde juntava os papéis e as garrafas. Vivia ao relento e detestava ser abordado por assistentes sociais ou voluntários que o exortavam a dormir em abrigos mais quentes. Não suportava as caras compungidas dos fornecedores de sopa, quase que a pedir sua bênção quando lhe ofereciam uma lata com fumegante conteúdo. Era como que se alimentassem de sua pobreza, assim como se se afirmassem com sua condição. Nada mais falso que a bondade às avessas dos falsos vigários ou dos forçados de batina. Ele os via com desprezo e asco. Apenas aceitava a sopa e o suco por obrigação e por necessidade absoluta, pois às vezes não juntava as migalhas que ganhava o suficiente para forrar seu estômago pelo menos uma vez cada dois dias.

 

Santo era nobre. Ou havia sido nobre em outras vidas e, dizia-se, pagava nesta o suicídio em outras, talvez; ou tivera sido um torturador arrependido, decidido a purgar suas culpas nas ruas amargas da cidade que o escolhera como vítima. Já nem se lembrava dos pais; sabe-se que vivera numa periferia qualquer, como são todas as cinzentas e tristes periferias das cidades, ocupadas de gente enfarruscada e abrutalhada pela necessidade de sobreviver a qualquer custo. Em seu caso, o custo foi o abandono e a indecente condição de ser um qualquer desde pequenino, com farrapos a lhe cobrir o pequeno corpo que foi endurecendo e encompridando e formando os músculos quando herdou o carrinho de tranqueiras do pai que tinha sido de seu avô, garrafeiro dos bons. Não há esperança nesta vida, para estes pobres não há nem sequer vida. Eles vivem de pequenas tarefas e o carrinho de madeira lhes cria calos nos ombros (observe-os de perto e veja); seu pai gritava nas ruas de calçamento de paralelepípedos da Aclimação, há anos:

 

--Garrrafeiro-ôoo!!!

 

E a legião de cachorros que o seguia era a antecessora dos cachorros que seguem Santo nas suas caminhadas pelas ruas asfaltadas e empedernidas da cidade que cresceu, junto com as misérias de vida e morte que trazem no bojo toda a civilização que explora Santo e seus congêneres. Seu pai morrera de repente, como seu avô desaparecera à beira do rio (uns diziam que se cansara e deixara o Tietê o levar, isso na época em que ainda nadavam nele; seu corpo nunca fora achado); sua avó chorara o companheiro, mas continuara a criar seus filhos, dos quais seu mais velho herdara a carroça e vivia a juntar garrafas e peças de metal no muquifo que moravam à beira da estrada da zona leste. Seu pai vira nascer o metrô, a Vinte e Três de Maio, os trens, vira crescerem os edifícios da Paulista, vira aparecerem mais e melhores automóveis, mas andava com sua carroça indefectível e sua possante voz era ouvida à distância considerável, ecoando nos cantos do Parque da Aclimação antes da criação do lago que cobrira as jaulas onde as feras eram aclimatadas...

 

--Garrafeiro-ôoooooooo!!!!

 

Assim as donas de casa deixavam com ele as garrafas de vidro que não iam usar e que ele vendia a preços módicos a indústrias que reutilizavam o vidro para fabricar outras garrafas de leite, de cerveja ou de refrigerantes que iam parar nas mesas dos mais abastados, que eventualmente as quebravam em cacos. O pai de Santo nada sabia destas desigualdades porque já nascera sob o signo do sofrimento e achava normal morar num muquifo próximo de monturos cheios de ratos. Morrera de repente, um dia antes de completar sessenta anos. Amanhecera morto. Teve enterro simples e pungente, organizado por uns sacerdotes de esquerda que sumiram na Ditadura e que o salvaram de ser enterrado em tumba de indigente.

 

Santo agradeceu aos frades e os viu sumirem, um a um, na feroz campanha de sumiços que acontecia em torno. Mais de uma vez, Santo vira uma execução à beira do rio, antes nobre, agora um esgoto a céu aberto e que antes abrigara o corpo de seu avô e agora recebia os corpos de estudantes, padrezinhos, jovens militantes e sindicalistas que se opunham ao Ame-o ou Deixe-o. Santo sabia que se o vissem vendo tudo, ele mesmo seria caçado por aqueles boinas-pretas. Escondia-se a mais não poder e os via praticando os atos bárbaros. Isso o emudeceu por um tempo e sua mão lhe perguntava:

 

--O que é que lhe deu, Santo?

--Nada, mãe. Nada.

 

Era ou o ser, ou o nada. E ele preferia continuar sendo porque o não-ser era a alternativa e ele não tinha Sartre para discutir se o ser podia não ser, nem era lido suficiente para saber que se ser ou não ser era alguma questão, então continuou a recolher as garrafas da burguesia nascente e orgulhosa até que começaram a aparecer as garrafas pet.  Daí, a coisa de vidro, mais ou menos lucrativa para alguns, minguou para Santo; nesta época ele conhecera uma moça que trabalhava em casa de patrões e morava em casa de alvenaria, próxima às bordas do Rio Podre. Esticava os olhos à rija morena que lhe chegava das ruas a altas horas e se prometera que, um dia, ainda teria seu negócio e casaria com ela e teriam filhos, e criariam uma história que seria História, e eis aqui o que criaram. Qual nada, a moça apareceu bojuda um dia, ele pensou que houvesse engordado, estava grávida do filhinho de papai e, óbvio, morreu de aborto. Ninguém conseguia pagar uma clínica decente, daí que ela procurou Vera, a aborteira do pedaço e morreu de agulhada infectada. Daí que Santo abortou qualquer família, emudeceu de novo e sua mãe, já alquebrada, lhe perguntava:

 

--Que é que lhe deu, Santo?

--Nada, minha mãe, nada!

 

Viu um preto que nem ele ganhar o mundo com os pés e enaltecer o valor do futebol; viu crescer o Brasil e o arrebol, um circo mambembe ocupou um espaço próximo e foram dias de alegria porque os palhaços ajudavam e divertiam as crianças do muquifo com comida, livros e misericórdia. Duas crianças foram levadas, um dia, quando partiu a lona e deixou um vazio na alma do lugar e nas almas das mães. Eles estariam melhores cuidando de leões de dentes moles do que ali a viver de papel e ferrugem. Santo olhava e olhava, porque de fora da lona, através de um rasgo, assistira as malabaristas, os picadeiros e os urros dos leões domados e os barridos do elefante Dumbo, que encantava as platéias jogando amendoim e bananas ao povo incerto. Santo se maravilhara, porque ao circo das ruas se somava o circo no deserto dali. Chorara quando eles se foram.

 

--Que lhe deu, Santo?

--Nada, mamãe. Nada...Não se preocupe.

E lá ia o Santo com o carrinho e hoje ele anda aqui, nas ruas do Brooklin, e conversou comigo e eu lhe gravei as histórias, porque agora já é velho, sua mãezinha já morreu como um passarinho, seus irmãos estão pelo mundo, e ele, só, vive sob o carrinho cercado de cachorros doces e cuidadosos.

 

Eu não sei nada de padres nem de sopas; sei de conversas, sei de palavras e gostaria de fazer aqui minha homenagem ao Santo que se foi, porque um dia, encontrei seu carro parado em frente à padaria do bairro, os pobres cachorros ladrando e as pessoas olhando de soslaio e tristes...

 

--Que deu neles, afinal?

--Nada, moço...Nada...

Quinta-feira
Mai022019

Olho Mágico

Meu avô paterno tinha muitas coisas de sua juventude guardadas. Ele havia sido linotipista em um grande jornal de São Paulo. A liniotipia era interessante: Você tinha de cunhar as notícias em máquinas que transformavam o texto da futura manchete em plaquinhas de chumbo com as letras a serem impressas nas páginas do jornal.Assim que a notícia era impressa, as plaquinhas, já inúteis, eram fundidas para se transformarem novamente em placas virgens para serem novamente moldadas em palavras novas, às vezes frases completas. Esse processo todo quem cuidava era o linotipista, constantemente exposto aos vapores de chumbo, ao calor da fundição das placas. Meu avô fazia isso e era sindicalista; sabia que, se quisesse, podia trocar as letras, transformando chumbo em ouro na maior parte das vezes, em constante alquimia; no entanto, trocar uma letra poderia arruinar uma manchete e isto eles ( os linotipistas) usavam como moeda de troca. Organizados, coerentes, corretos, defendiam melhores salários sempre. Meu avô era espanhol e havia lutado contra Franco na Espanha e fugido de lá por ser acusado de conspiração e subversão...A Espanha, pasmem, foi aliada de Hitler. Guernica foi uma demonstração ao mundo do poder do horror que se avizinhava. Meu avô tentou lutar contra isto e não deu certo: Fugiu e casou-se com minha avó. Eu ganhava, às vezes dele, às vezes de meu pai, plaquinhas com letras forjadas que vistas de frente, estavam ao contrário. Palavras soltas: Delegacia...Confusão...Uniformes azuis...Palavras soltas, frases. 

No quarto de sua casa, sobre uma espécie de mesinha de madeira escura, havia um rádio, desses compridos, de testa alta, com um alto-falante arredondado , o dial abaixo com o botão de rolagem e...O Olho Mágico!

--Vô! Por quê mágico?

--Porque quando você sintoniza a rádio certa, o olho se concentra. Quer ver?

E eu, criança, já imaginei o olho fazendo mágicas, trazendo a voz que pertence ao dono à vida, ou formando a figura do dono, ou lançando bailarinas russas do Bolshói no ar dançando Lago dos Cisnes...Qual nada, a mágica era a sintonia mesmo e o prestidigitador brincava de abrir e fechar o tal olho verde. Quando abria, sabíamos ser fraco o sinal; quando fechava, a sintonia era fina. O olho mágico me fazia pensar em outras línguas, porque o rádio de meu avô captava ondas curtas...Não raro, ouvíamos rádios chinesas, japonesas, russas, árabes...Uma algaravia de línguas estranhas enchia o quarto de meu avô e, se não me engano, mais de uma vez ele se entristeceu ouvindo os sotaques de sua Espanha querida, afastada de seu peito por uma ditadura feroz e cruel.

--Ah, Granada...Granada!!!

Eu pensava logo numa explosão mágica, Granada cheia de rubis e esmeraldas nas roupas das dançarinas de flamenco ou nas ciganas lendo as mãos do povo para aquecer seus corações, as paixões dos toureiros nas arenas sangrentas, as areias tristemente avermelhadas, Granada, Granada...Ou na mágica dos céus azuis e secos das montanhas, das caminhadas nas florestas que meu avô tinha frequentado e nas horas de angústia que passou escondido das tropas franquistas que arrancavam os moços de suas casas e os executavam nos vilarejos para dar exemplo. Ah, Guernica, Granada, Guernica, sangue e espada, Guernicas e touros, Franco e falácias, touros gemendo, línguas rosadas, cavalos partidos e moinhos de cavalgada...Sanchos e Quixotes. Doce espanhola malvada que virou embuste, virou mágica no olho que entristecia meu avô com seu sotaque carregado de flores desarraigadas, eu virei o dial e caí direto numa rádio árabe...Que dizia em língua inflamada que nós éramos infiéis. Pelo menos foi o que meu avô disse, meio mouro que era, com o sorriso de ironia e indulgência que os avós têm.

Penso que a Vida o levou mas o olho mágico do tempo o revelou a mim; recordo suas histórias saborosas e tento refazer os caminhos que as ondas do rádio perpetuam na imensidão do Cosmos. Sim! Isso porque, daqui a dez mil anos-luz, a mensagem chegará ao Abismo, eu mesmo já terei partido e os moinhos continuarão vivos nas vozes flamencas cantando Quixotes e Panças.

 

Quinta-feira
Abr042019

Lagoa dos Cisnes

Três amigos. Como poderia descrevê-los? Eu sei que vocês não têm paciência com descrições. Lembrem que Darwin descreveu muitas espécies diferentes e em sua descrição, desenvolveu a Teoria da Evolução! Não que eu queira chegar a tais alturas, elaborando uma Teoria da Evolução dos Hominídeos, que foge ao escopo dessa narrativa, muito embora eu tenha chegado à conclusão que nossa espécie precisa de parâmetros mais convincentes evolutivos se quiser escapar ao destino que o Mundo lhe reserva, a continuar o comportamento predatório que nos faz destruir o mundo que nos criou.

Três amigos! Tudo isto por causa deles!

Um deles chamava a atenção pela altura e porte de príncipe eslavo; olhos verdes, cabelos esvoaçantes, bela estatura para um soldado da Prússia. O que tinha de belo tinha de dúbio...O outro amigo tinha estatura média, ombros largos e grandes mãos, cabelos grisalhos e olhos bondosos. Coração grande... O terceiro deles era baixo, barba espessa e já com manchas cinzentas, cabelos chapados e abundantes de descendente de espanhol. Dos três, era o que tinha humor mais ácido, ainda mais se provocado em suas essências.

Passou uma bela mulher; o príncipe eslavo jamais poderia passar despercebido e ela, com longos olhos, o fitou. Ele, talvez acostumado a tais excelências, se fez de desentendido, ao que o outro, azedo, comentou:

--Só é cego quem não quer ver.
--E quem é que disse que não vejo?
--Gente, é uma beleza essa natureza.

Só podia ser comentário de nosso amigo de largas mãos. Ele conseguia disfarçar as piores intenções com seus mais largos gestos; desarmava muitos com as largas mãos sobre os ombros e o sorriso largo. Logo vinha o abraço de urso de que ninguém podia escapar e que transmitia sua ternura e seu otimismo contagiantes. O Soldado Dimitri (assim os outros dois o chamavam) por mais que quisesse não disfarçava as intenções menos nobres, vamos por assim dizer: enquanto um olho seu boiava o outro acompanhava a tempestade de curvas volúveis. Já o terceiro, o casmurro baixinho...

--Bah!
--Vai dizer que não gosta...
--Da Natureza? Muito simples: A Natureza é uma sucessão de fenômenos químicos e voltaicos; a paixão não passa de uma fúria passageira que é sucedida por séculos de insuportabilidade mútua e corriqueira. O trivial substitui a transcendência, o arroz complementa o feijão e seguem os dois marchando rumo ao destino comum a todos: O cimento! Nosso Anjo Eslavo que o diga...
--Discordo e concordo: A beleza é transcendente, embora passageira. O que permanece é a ligação...
--Viu? Fenômenos químicos e voltaicos. Diz-se: “Nossa, aquele casal tem química”, ora pois bem, quando a reação se completa, sobram sulfetos a amônias! Meu bem, meu bem, meus bens, meus bens! É um contrato social e acachapante! Não passa disso! E a paixão é a burrice tornada orgânica.

O amigo otimista coça com a mão direita o queixo e a mecha de cabelos brancos. Parece alarmado, mas com a dúvida, costuma arregalar os olhos e abrir a boca hesitando um pouco antes de responder totalmente a uma questão dirigida a si.

--É, meu caro. Creio que você talvez nunca tenha passado por tal chama. Daí, o amargor de sua existência!
--Amargor? Eu me basto. Longe de eu ser misógino! Adoro as mulheres. O problema é que elas não me adoram como a ele (e aponta o queixo do embevecido soldado de chumbo, enlevado pelos perfumes emanados da figura que corou dos pés à cabeça ao saber-se motivo da conversa). A mim, nunca me adoraram, aprendi a defender-me. Ouso dizer que nunca precisei delas. Basto-me a mim mesmo, chego em casa e esparramo-me no sofá e ligo a música que quero com a rainha que posso pagar, ora essa.
--Eu não ligo. Mas que são belas, isso são.
--Não digo que não são belas, mas a maior parte delas segue o curso de Darwin; querem bons reprodutores para perpetuar a cadeia infinita de nossa espécie; óbvio que escolhem as melhores aparências...

O Belo Soldado reagiu com alguma indignação, porém, sabendo-se desejado por inúmeros olhares que já enfrentara, deu com os ombros. Na verdade, estava com sede e os três já falavam há algum tempo na secura do sol da tarde. Havia a premência de um refrigério, de uma cerveja.

--Vamos beber?
--Ora, se vamos!

Sentaram-se em uma das mesas dispostas na calçada da Vila Madalena. Primeiro sentou-se o otimista, depois o amargo e por fim, o Belo Adormecido ( dormia demais o moço).

--Então, brindemos!
--Brindemos!
--Às belezas!
--À Poesia!
--Garçom!

Vinha lá como um raio o moço empertigado responder ao chamado.

--Dessa vez, eu pago!

Os dois velhos amigos se entreolharam; normalmente, o Eslavo dava nó em pingo d’água para pagar, sempre se omitia ou se esquecia. Em palitinho, marcava sua escolha com cuspe, em sorteios, deixava uma aba no papel. Se pagava, é porque tinha em altas considerações a conversa que houvera. De tal modo que pagou a sua parte, sumiu-se e os dois restantes tilintaram os copos.

--É, meu caro, talvez o Cisne tenha sido levado à Lagoa de novo.
--É sempre assim. Depois, volta triste porque não conseguiu o que queria. Eu avisei!

E seguiram com os olhos a aproximação dos dois, a sílfide e o Muso. E se lembraram dos passados. E se despediram porque em casa lhes aguardavam os netinhos.