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Segunda-feira
08Fev2010

Crônica Antilhana

Andava pelas ruas de St Maarten,  ( assim mesmo que se escreve--são duas partes na ilha, uma é francesa, a maior parte, outra a holandesa, a menor) no sol quente e metálico que tostava minha pele até o mais fundo de meus ossos.  Lembrei dos livros de Hemingway que sabia como ninguém descrever o clima caribenho, até porque morou até o final de seus dias em Cuba, onde existe uma casa sua preservada; recordei o andar das mulatas que  na ilha de Fidel são mais curvilíneas e as da Antilha Holandesa são maciças, gigantescas, o que parece ser um tipo de beleza admirada no local, até porque os americanos que vêm em enxames passear pelas joalherias de ouro e pedras preciosas são igualmente volumosos. Os homens têm um andar típico, sacolejado, malemolente, com ares de indolência e preguiça e sorriso insolente no rosto quando fitados cara a cara. Meu maior pecado é olhar muito as pessoas, tentar identificar nelas traços em comum. Notei que todas as mulheres que trabalham ralham com seus companheiros asperamente, geralmente à luz do dia e que os homens que trabalham o fazem com rostos doloridos, culposos até.

Quem anda por St Maarten não pode se impressionar com os contrastes violentos entre a opulência dos iates e a pobreza das habitações em pleno centro da cidade, no caso Philipsburg,  onde esgotos a céu aberto convivem com ruas de ostentação e negociações intermináveis. Não é incomum se deparar com comerciantes indianos perseguindo clientes que se negam a pagar o primeiro preço pela mercadoria que eles exibem em vistosas vitrines duty-free. Quem anda pelas ruas não deve se importar com os diversos cheiros das comidas picantes, desde as lagostas que eles exibem vivas diante do apreciador em tanques de vidro como se fossem aquários, nem com as bebidas fortes que causam tonturas ao primeiro gole.

Tenho mania de fotografar e fixei as lentes da máquina recém-comprada numa pequena igreja que já é um postal da ilha, dotado de todos os meus talentos artísticos e de toda a benevolência do mundo, quando uma voz vociferou bem ao lado esquerdo de minha cabeça, num inglês que misturava dialeto local com francês:

--Motherfucker!

Entendi a grosso modo que ele não havia me autorizado a fotografá-lo só porque eu o desejava; decerto quereria direitos autorais de imagem. Tinha grande estatura, uma barba longa espichada e dura de sujeira, os cabelos à moda Rastafari espalhados em grandes cachos pelos ombros e cobrindo parte de seus olhos e testa. Um companheiro seu disse que eu apagasse as fotos e eu o fiz, uma das vantagens que a máquina digital tem sobre as outras analógicas, apesar de que os puristas as preferem pela sua maior maleabilidade em criar com as imagens. Percebi que a coisa ia engrossar porque de maneira nada religiosa os impropérios reverberavam na cúpula da pequena igreja sem que alguém se dignasse a lhes chamar a atenção.

Fui então a uma loja, onde ao perfume exalado pelas loções, fragrâncias, cremes, poções, pós de rosto e maquiagens se confundia com a beleza das vendedoras. Uma delas se aproximou ao me notar alarmado e tratou de dizer em inglês com forte acento:

--Dont worry. Crazy man.

Ela falava mal o inglês, eu arranhava bem um espanhol, daí foi por este lado que eu descobri que ela vinha de Sâo Domingos, a República Dominicana e também fiquei sabendo por ela que muitas pessoas de vários países trabalham lá: De Cuba, Nicarágua, Venezuela, França, Holanda, Haiti... Jamaica... Na verdade, um verdadeiro caldo cultural de serviçais e vendedores e garçons e perfumistas. De sorte que nos entendemos e ela tinha um lindo sorriso de marfim que eu percebi com segundas intenções, qual o quê: são os dentes profissionais que seduzem os incautos; saí de lá livre do malfeitor que fora embora e livre de uma boa carga de dólares por conta de pequenos artigos e grandes perfumes que ela me vendeu a preço de ouro e veja você, tudo para satisfazer algumas de minhas amigas que estavam hospedadas ali por perto mas àquela hora ainda não haviam levantado pois eram muito preguiçosas  e preferiam dormir até mais tarde ao maravilhoso sol que escancarava as faces de topázio do mar caribenho aos primeiros fulgores  da manhã.

As joalherias cravejadas de pedras da região, de topázios e ametistas imensas, sempre cheias de americanos, europeus, todos de narizes vermelhos e envoltos na neblina do álcool ou de olhos perdidos no calor inclemente do sol de prata espiando do céu azul sem nuvens. Não vi ninguém lá que não estivesse ou bebendo ou alterado; os que menos vi assim eram os indianos, centrados, convincentes e de olhos fixos na clientela espalhada pelas suas lojas de artigos eletrônicos, de perfumes importados, roupas exóticas ou jóias. Nas lojas de bebida havia outros senhores e mais chineses trabalhando em seus mercados de mil coisas. St Maarten é uma Babel desmiolada e quem vive em cidades com trânsito ruim não se espanta com as filas de carros. De dez automóveis que você olha, nove são diferentes entre si. Milhares de marcas desconhecidas e montanhas de carros inúteis jogados às pencas na beira de desmanches. Mil línguas se entrecruzam, milhares de vozes se misturam quando um navio grande desembarca no porto imenso, coalhado de iates de enorme envergadura.

Caribe, esta usina de belezas. A imagem que guardei foi a das águas vivas de noite fazendo as estrelas brotarem no meio do  mar, em um conjunto qual galáxia em movinento reforçada pelas ondas suaves. St Maarten das aeronaves pousando, do vento das turbinas arrancando roupas de turistas desavisados. St Maarten dos chapados loucos, do grito de parada nas vans que circulam a dois dólares, St Maarten do sorvete e do mau humor dos atendentes.

--Motherfucker yoyo man.

Um dialeto incompreensível, um andar de molecagem, as moças quase ocultas nas sombras... A música caribenha enchendo os ouvidos de quem passava, por toda a parte, os guardas de roupas claras, as européias de seios de fora nas praias onde sabiam-se ilesas. As brasileiras boquiabertas, que lugar é este meu deus, as pedras nas encostas batidas pelo vento e pelas ondas verde-esmeralda.

--YoYo Man.

--Motherfucker.



Terça-feira
19Jan2010

Piano de Cauda

Já não escrevo faz algum tempo e nestes dias andei pensando se havia algum tipo de bloqueio, foi quando fui falar com minha analista e ela me disse que a energia que se prende se torna em algo  mais sutil, como se fora um corpo físico e eu, mas como, um corpo físico e ela, sim, algo sutil, mas com corpo, se pensamos em alguém não sentimos sua proximidade? Sim e eu pensei em minha mãe cantando na área do apartamento e senti que ela estava tão perto que quase podia tocá-la e ressurgiu meu passado como num lampejo de farol, viu? Ela disse e eu dei razão, então se deixei de escrever este corpo etéreo que é o não-escrito pode se tornar um corpo físico, sutil, mas não irreal, uma presença que se plasma às outras presenças como se fosse uma fantasmagoria e os personagens nem especulados podem adquirir vida própria, daí eu escrever de novo, pois sinto sua existência de simulacros abandonados sendo lentamente refeita e as linhas de seus destinos ligadas à minha de maneira que saí do consultório mais leve, pesando uns oitocentos quilos a menos fui a um pequeno bar já olhando a bela moça que se sentava sozinha a um canto, certa de não estar sendo seguida e lá estavam meus olhos quando vi que ela pediu um licor de cacau( sei ler os lábios, era muito discreta) e olhou para mim num sorriso leve e encantador, viu, ela me disse, você já imagina as coisas e pode ver o invisível, e eu sou meio fraco nestas coisas de amar, de me sentir amado, sempre tive meus problemas e ela, está bem, pode se vitimizar, mas não é o que realmente você quer ou deseja e eu, como pode saber o que penso se nem externei minha idéia e ela, com  ataca de licor, eu sei o que pensa porque sou uma estranha personagem e era mesmo, tinha mechas avermelhadas nos cabelos, um olho azul,de doer a vista, belos seios e mãos irrequietas como se ela esperasse alguma coisa de mim e eu comentei, belas mãos e ela, são de pianista. Ah você toca piano? Tocava sim, mas nos últimos anos dói demais tocar, quando eu teclo minha alma vem à tona, já não sei se Chopin, se Beethoven, se Bach; Toca todos? Sim, mas como disse, tocava e agora? Dou aulas, ninguém vive de um piano de cauda se não der aulas para se ter o que comer e então? Quero ver este piano, que marca, ah é um piano velho, mas foi de minha mãe que tocou em uma orquestra húngara e sei lá como ela trouxe o piano ao Brasil, está vendo, meu bem? Não sei a marca, só sei que as notas são langorosas, saem de minha cabeça e se plasmam nas cordas vivas de minha juventude, ah é? Pois eu escrevo e tenho quase que certeza que você é minha personagem, como assim? Eu sou gente como você, ah sei, e por que este olhar tão triste, poderia se encaixar perfeitamente em minhas páginas esquecidas, como assim? É que eu escrevo, esqueço onde guardo e depois de muito tempo vou achar o texto e ela rindo, como é? Sim, esqueço das páginas, você deve ser uma destas personagens que eu esqueço por aí e que resolvem se tornar fujonas, volte para meu livro de idéias, ah ah ah como você é louquinho, sou mesmo mas quem usa cabelos vermelhos é você, isso eu fiz ontem, gosta? Te dá um ar de maluquinha extremamente sensual e atraente, gosta de licor? Sim, principalmente de cacau e também de menta, amarula, licor de cereja. Não suporto destilados, nem eu, odeio gente que fica falando de Ballantines e afins, somos dois então, pois é, mas você não fuma, está louco, quero durar quinhentos anos, eu já nem tanto, oitentinha já me bastam, ah é muito pouco, é merrequinha de tempo, ah ah ah, já subiu a bebida, sim eu sou sensível e você é escritor, porque não escreve um conto mais direto, ao invés de ser tão covarde se escondendo atrás da literatura e tentando realizar tudo aqui que não consegue na vida, ah então é isto o que pensa de escritores? Não, só falei para te provocar, mas não deixa de ser verdade, eu acho que meio que criei um mundo e você acho que faz parte dele, está me achando com cara de andróide? Não e se fosse, seria uma bela aquisição, você não é um não? Desses que se vendem por aí e saem trepando com as humanas feito doidos e depois querem casar e ter filhos e coisa e tal, claro que não sua boba, sou de carne e osso, você é que é a Maria Fujona, volte para meus livros, vamos fazer um acordo, você volta e eu te deixo ser a mulher mais feliz do mundo, com direito a castelo, chofer, marido rico e amantes idem, mas volte depressa, eu hein, você endoidou, precisa voltar mais à terapia, você acha, ah com certeza e ela pega o telefone que abre sua tela holográfica e deixa entrever um vulto que a chama e ela ilumina seu rosto comum com um riso certeiro; Jack, play it again, ela nunca olharia assim para mim sequer uma vez, bom, tenho de ir, fica mais um pouco, volta para meus livros, ah deixa de besteira, vou encontrar meu namorado, e vou ao cinema assistir ao filme desencontros, quer vir? Não, hoje realmente não posso, mas gostei de conversar com você, tem uma esperteza linda, linda é você, está bem, mas preciso ir. Levanto da mesa depois que ela se foi, dois copos de licor vazios pontilham nosso encontro fortuito. No piano o gaiato toca adeus amor e eu de lado lhe faço um gesto que ele responde, uai, não foi desta vez, haverá outras, muitas outras, tantas que eu não saberei se o que criei já se voltou contra mim ou se o piano que toca é o dela, as notas langorosas...

Sábado
02Jan2010

Ano Novo

O primeiro dia de um ano novo sempre nos remete ao que do antigo se foi; vão-se alguns dentes, o juízo se adelgaça e a silhueta se posiciona infatigável, num crescer coerente com a progressão geométrica do tempo-espaço.

No primeiro dia, eu me lembro bem, havia uma dúvida, uma tribo já inexistente, talvez uma aldeia cheia de guerreiros orgulhosos olhando das paredes da choça com severidade e tristeza num tempo já que nem se conta mais

O raiar de um novo ano se enche de promessas que jamais se cumprirão, reveses que os anos solaparam para um tapete imoral que insistimos em esconder do mais curioso de nossos vizinhos.

Uma fogueira, sim, com as brasas saltando em faíscas, estalidos e chiados e o conto dos cantos da tribo passado de boca em boca preservando o que havia de mais belo e enxuto, das quedas d’água aos passos das feras assustando os mais moços e os velhos mais astutos

É como um conto impoluto: começa branco, sem idéia, vai conquistando o espaço por ele mesmo e desenha a forma geométrica do cocuruto onde medra uma nova existência inimaginável.

As crianças choram, umas de fome, outras de sono, as mães de seios caídos as acalentam, antevendo o que as espera, nos ruídos da floresta que se abre ao inimigo, o maior de todas as lendas

Ah, primeiro dia do ano, aquele que se habita a si próprio como um tempo cheio de espera, já em seu bojo a insinuação de sua boca, de seu ventre cálido e desnudo, de sua mão acalentando as novas primaveras. Ah, as promessas à beira de uma choça, uma tribo inexistente

Uma fogueira de feras nos olhos do tapete imoral das tribos escondidas, ah o prazer nas quedas d’água, na floresta inexistente de outrora, a brasa do teu rubro ventre entre os grandes contornos de suas pernas

Enquanto choram os rios desviados dos cursos de todas as primaveras, é como um conto de um conto de réis que não vale nada, nem um olhar de esguelha, talvez uma árvore caída numa cilada

As mães d’água, as pobres perdidas de sífilis levadas de suas casas, as exiladas em vida, umas de fome, outras de medo, muitas de sono ou do nada a fazer, a pior de todas as lendas, na tapeçaria cobiçadas como escravas, na insinuação da boca torta do mateiro

No teu ventre zombeteiro, primeiro dia de um ano enxuto.



Sábado
12Dez2009

A Grande Casa Silenciosa

A literatura não passa de um esconderijo daqueles que não sabem como viver o dia e a noite. É um simulacro de realidade onde o escritor se põe e se coloca como personagem ou descreve as ações de um Outro que ele mesmo desinventa para em outro momento rapidíssimo reinventar as tramas e deixar desnorteado aquele que lê. Rabiscando uns rascunhos na mesa do bar ele pensava nisto enquanto bebericava cerveja, à sombra de uma figueira brava com seus inúteis frutos e galhos cobertos de musgo e ervas de passarinho e uma ou outra trepadeira. O tronco estava cheio de corações escavados a faca ou estiletes com declarações de amor e nomes ilegíveis. Perto da esquina onde estava o pequeno bar dos encontros de toda a cidade ficava o indefectível bêbado que costumava fazer companhia a outros dormindo em um dos jardins da praça; quem poderia finalmente expulsá-los e para onde iriam?

Lá adiante, abaixo do Pau-Brasil, estava o pipoqueiro que aguardava ansioso a chegada dos colegiais que logo sairiam da escola municipal. Seus olhos então boiavam nas nervuras das árvores e ele percebia entranhar-se em sua consciência a casa, aquela que ficava além da praça, sempre sob a sombra de árvores seculares e de uma gigantesca Primavera que ofuscava os olhos com seu brilho e suas cores. Ele se imaginava voando para divisar em momentos fulgurantes o que se passava sob o telhado da grande casa, como se fora dotado de uma visão mais que especial.

Curioso, ele perguntou ao dono do bar, apontando com o queixo a escadaria somente entrevista dali de onde estava parando de escrever por um momento.

--Você sabe quem vive lá?

--Na Casa? São de pouco sair, certas vezes a família sai de carro e vai tomar sol no parque da cidade. Você precisa ver o carrão! O pai é um homem alto, ele é dono de uma indústria de suplementos agrícolas, mas vende mais para a capital, não tem loja aqui. A mãe é uma bela mulher, ainda em seus formosos anos, porém é sempre discreta.

--Quem mais?

--Uma moça lindíssima. Tem longos cabelos negros, tem olhos verdes e deve ter seus doze, treze anos. Eles não têm mais filhos. Dizem que também lá vive a mãe do dono da casa, uma senhora de cabelos brancos e emudecida por um derrame. Nunca a vi por aqui.

Das janelas da casa, os olhos verdes dela perscrutavam as copas das árvores, iam além do infinito, escalavam os montes vizinhos dos arredores da cidade de onde majestosas asas-delta pulavam sobrevoando a pequena cidade com velocidade e destreza; podia-se ouvir o ruído do vento inflando as estruturas coloridas e vez em quando ouvir os gritos dos praticantes do esporte. Ela imaginava que um dia poderia voar assim, um dia poderia sair daquela casa, em algum momento do tempo determinado pelo destino ela havia de alçar seus vôos próprios e cultivar seu próprio destino.

 “Hoje é sexta-feira. O silêncio precede o vento que infla as asas da vitória contra a gravidade. Dia de pensar na hora em que chegar a liberdade, de sonhar com a vinda de alguém há muito desejado, de fantasiar divinos sonhos, de repensar meus papéis no mundo.”

Nos seus sonhos ela aparece, enluvada, as luvas brancas cobrindo delicadas mãos ciosas de sua beleza, os cabelos longos emoldurando uma delicada testa, olhos de uma diáfana cor esverdeada como o mar revolto que aparece lá fora; ela lhe sinaliza para que venha e ele sobe as escadas colocando-se ao seu lado, sob a majestosa sombra da velha árvore. Nos seus sonhos ela tira uma das luvas e lhe expõe unhas de cor madrepérola enquanto ele a toca e sente a maciez de sua pele e o calor de seus dedos entre as palmas das mãos. Uma lufada de vento levanta seus cabelos e colore seu sorriso com um súbito raio de sol. Ele se sente absolutamente encantado, é o sorriso da beleza pura,o convite da absoluta sensualidade desnuda, lábios cheios de cor e dentes de absurdo marfim. É aí que ele acorda e levanta em sua casa e vai beber um copo d’água para acalmar os sentidos aguçados pela brisa noturna da madrugada que se infiltra em lentas cores dissonantes. Quase dormindo ou meio acordado ele ouve os pequenos barulhos que os meninos fazem, numa conversa cheia de cochichos e pequenos risos, não sem antes ela ralhar com eles pondo-os definitivamente para dormir e ele se deita, porque os meninos não existem e ele definitivamente exagerou de novo.

“Hoje é sábado. Papai provavelmente vai querer passear no parque onde faremos mais um piquenique. Coitado, ele quer me agradar e não consegue, são tantos anos que ele tenta, mas nada me agrada mais que pensar que um dia estarei longe, olhando os telhados destas casas e me tornando eu própria dona de meu destino,  apenas o vôo com o vento em meu rosto, como um pássaro de longas asas...”

Penteava os cabelos languidamente, escovando cada ponta, pensando nos pássaros, nas árvores, nos deveres de casa e na professora que gostava de seu jeito de se expressar, quem sabe ela pudesse escrever mais um conto como aquele. Concordava e o fazia para agradá-la e então aparecia a praça, o rapaz bebericando e escrevendo na mesa, a figueira brava e seus frutos inúteis, surgiam as asas-delta e seus vôos e o rapaz a fitava de longe, como nos seus sonhos que a acordavam de noite bruscamente com o barulho dos meninos que definitivamente eram duros na queda.

O sol se põe em movimento, deixando as sombras compridas e o céu de cor rósea; folhas se levantam com a tarde que se finda e já se ouve a algazarra dos alunos que terminam mais um período, movimenta-se o pipoqueiro para receber os pedidos, já se sente o cheiro no ar. Ele escreve furiosamente nos papéis que ameaçam voar com as lufadas de vento, sim, será assim que a imaginará, voando solta como uma folha ao vento, livre como uma andorinha.

Lá, adiante da praça, ela olha o céu vermelho e escreve em seu diário que mais um dia se foi, que está na hora dela ler o livro que seu pai lhe deu, está na hora de ela arrumar espaço em seu armário para as coisas que tem em excesso. Ela escreve que ele sai do bar com ritmo leve, embalado pela cerveja, não sem antes lançar um olhar em direção à janela de seu quarto iluminado, quem sabe perscrutando o silêncio que se apossa pouco a pouco daquela casa enorme e aconchegante; ela escreve que está na hora dela cuidar de sua avó emudecida e de olhos vivazes, ajudando-a a descer as escadas para que possa ouvir a música que vem do rádio que seu pai lhe deu, em estações tão longínquas que ela nem sabe das línguas que se falam lá.

Chegará o dia em que ela encherá com sua voz a Grande Casa Silenciosa e fará com que se mude para lá a alegria, junto com aquele que subira as escadas e a vira de luvas, graciosa, pedindo sua mão e corando porque nunca sentira isto, ainda se desvencilhando dos farrapos da infância. Então ele venderá os livros ao pipoqueiro e ao bêbado que se tornará ávido leitor, a cidade e seus carmins se encherá de saraus onde ela poderá contar as histórias que sempre quis porque os meninos assim o pedirão, com riso no olhar, à beira do sono, quase naquele interstício que povoa de sonhos a realidade e ela começará a história pelas janelas de sua antiga casa, aonde foi morar depois que se foram os pais e a avó muda.

Terça-feira
08Dez2009

Natal

Nasceu uma estrela das mais brilhantes. Dorida, a moça olhou o céu, as roupas no tanque e o suor brotando de minúsculos poros. Ouvia as vozes lá dentro, de dentro de si vinha o brilho da estrela, de suas mãos nascia o milagre que movia aquela casa. Ela sabia, ela tinha a certeza agora, porque era ela que brilhava no céu, eram as suas mãos que faziam urdir toda espécie de felicidades naquele quinhão de sonhos que lhe fora reservado. Era ela que se movia no céu, elevando o brilho e a orbe junto com as outras companheiras de espécie, a das que reluzem.

Nasceu um fulgor em seu olhar enquanto ela contemplava a Via Láctea e seu sumo, o suco das noites maravilhosas. Lembrou-se de todas as que havia passado e refulgiu uma pequena lágrima de gratidão em seu rosto sofrido, embora ainda resguardando a juventude.

Só parou de pensar quando seu menor, em silêncio, veio pegar em sua saia e lembrar, a voz pequenina que lhe aqueceu o coração.

--Mãe, entra que chegou o Natal!