Quarta-feira
Jul242019

Alma

A moça, de porte elegante, nariz bem-feito, orelhas lindas ocultas por cabelos cacheados andava preocupada, ensimesmada mesmo, eu diria.  Eu poderia dizer que, observando-a mais de perto, parecia perdida, não no sentido de não saber onde se está, mas no sentido de não se saber se se é, ou se existe.  Eu a vi, portanto, em minha mente, ela existia, mas será que ela me olhava e sabia que eu existia? Eu andava próximo, talvez a dez passos de distância e me aproximei porque me preocupava seu olhar cabisbaixo, como se fosse assombrada por miragens que quisesse afastar ou por visões que não ousasse provocar.  Seu vestido era fino, tinha uma trama de folhagens, folhas coloridas sobre um fundo azul-claro, tinha duas botinhas sobre as quais equilibrava um corpo de bailarina. O que faria uma moça assim deste jeito, olhar baixo, uma pequena malha na mão direita e uma bolsa leve a tiracolo, tão concentrada em si mesma que se parasse, meu medo é que se desvanecesse e sumisse, tal a visão que oferecia?

 

Parou um momento, olhou para suas mão livre (a esquerda) e comprovou seu desconforto com um aperto de olhos. Estaria se sentindo mal? Haveria algum mal em me dirigir a ela e perguntar se tudo andava bem ou se mal lhe perguntasse, precisaria de ajuda? Nestas horas, uma abordagem pode ter mais efeitos maléficos que benéficos. Pode soar como intrusão ou mesmo algo pior, um assédio. Nunca se sabe. Talvez ela fosse, afinal, lunática, apesar de bem-vestida; talvez estivesse sob efeito de drogas, um tipo que derrete a sensação de ser eu mesmo e dissolve as barreiras entre o Ser e o Outro e enfim, ela se sentisse parte de mim e se envergonhasse de alguma forma. Ou ainda, talvez houvesse um terrível segredo naquela fronte tão suave e tensa. O que a deixaria incomodada? Se alguém lhe queria mal ou algum mal lhe fizesse, juro que torceria o pescoço eu mesmo de tal monstro. Ou se um outro lhe houvesse dado um fora, eu mesmo consolaria tal musa. Sou generoso, mas também não sou idiota.  Uns diriam “anjo torto” e outros “santo de pau oco” mas nada disso se adapta ao meu perfil. Sou mais um observador da natureza humana em minhas andanças pelas ruas da cidade.  Enfim, ela parou e não se desvaneceu como eu temia. Seus lábios se contraíram como se mordiscasse uma praga ou engolisse uma jura de amor. Uma jura de amor! Que jura esconderiam aqueles lábios vermelhos? Quem seria capaz de ser o moto-perpétuo de tal paixão?

 

Eu mantive a distancia porque não a queria assustar. Também não gosto de afugentar os observados, a não ser que me interesse tal fuga. Costumo fazer isto com os maus intérpretes de minha conduta; um olhar enviesado que talvez se torne hostil, um olhar esgazeado que denote raiva ou um olhar adoçado por uma falsa ilusão são estopins de minha ira e daí, eu me torno um outro eu que além de observar, age na escuridão. Daí eu grito, jogo pedaços de galhos caídos, arremesso copos e garrafas, o que tiver à mão. Já disse que meu objetivo é um só: Observar a natureza humana, esta misteriosa convenção de comportamentos, maneirismos, esgares, gestos e mímicas que a sociedade nos impõe. Fora disso, acusar-me-ão de louco se eu falar aqui o que mais me move senão a plena observação dos costumes.  Se eu descrevesse aqui o que já vi, talvez alguém me convidasse a habitar um hospício, sendo que os habitantes de tal asilo andam à solta ao passo que eu...Só me encanto. Sim, eu me encanto com os passos da humanidade, do Homem, da Raça Humana. Só que estes seres, por tal solidão minha, não se interessam por mim, mal me vêem.

 

Eu sou apenas uma imagem sombria, um reflexo que anda, uma miragem que respira, um traço de um giz numa lousa de uma escola arruinada. Eu apenas risco esquetes da vida que estes seres desiguais vivem e me assombra a quantidade deles que mal se apercebem do que se lhes vai às almas. Portanto, de tais observações, concluí que tal alma não existe, porque a alma que se apregoa não deixa de ser uma farsa, uma vez que são os automatismos que dominam o mundo; todos coçam as cabeças, todos mordiscam os lábios, todos olham de soslaio, todos desconfiam de si mesmos. Desconfio que eles desconfiam de tão desconfiados que andam, de todas as coisas.  Resumindo: Acho que, cada vez mais, eu tiro de minhas observações de que tais seres desconfiados e automáticos são meros reflexos condicionados; não há uma essência que una seus gestos e maneirismos...Definitivamente não há fio condutor de tamanha eletricidade a não ser os condicionamentos sociais a que estão obrigados a mostrar a si mesmos, uma vez sozinhos à mercê do silêncio de seus corpos....

 

Isso foi até agora, pelo menos. A moça que caminha sorrindo, depois de tantas marchas e contramarchas, demonstra que ela é um ponto além da curva, uma exceção ao meu método estatístico. Ela é uma beleza e carrega dentro tal densidade que mal consigo fitar seus traços sem imaginar a miríade que a habita.  Não se mostra desconfiada, raciocina, exibe sentimentos, ou é uma atriz que repete consigo mesma seus papéis diversos (namorada/amante/mulher/esposa/trabalhadora/poetisa/matriz) ou requer atenção porque tem sentimentos aleatórios. Olhem lá, vai atravessar a rua. Está distraída! Ela se contrai em tamanha intensidade que faz um ponto invisível se tornar o centro de seu universo e mal vê a ameaça que rasteja em sua direção, este sim um monstro de toneladas, mecânico, articulado, rabugento e inverossímil. Ela caminha decidida, talvez ao fim...Será que minha observação terá de se tornar ação? Terei de abandonar minha hipótese para que a tese não tenha a demonstração?

 

--Cuidado, moça! Olha o ônibus! Cuidado!!!!!!!!!!!!!!

 

De um salto, ela suspende o andar. Num átimo, ela desviou seu destino. Num minuto salvador, ela se poupou à vida; orgulho o meu, que evitei um desastre. Mas ela me procura com os olhos e definitivamente deixou de ser a observada e com olhos de águia procura a origem do grito salvador.

 

--Foi você?....

--Pensei que fosse morrer!

--Obrigado! Muito grata! Meu Deus!

--Calma. Quer uma água?

--Estava pensando tanto, mas tanto que...

 

...Esqueceu-se de si mesma. Contei-lhe meus planos e disse-lhe que, em minha opinião, ela era a alma que eu procurava longe dos autômatos que observara até então. À formalidade seguiu-se o riso contagiante, ao olhar assustado sobreveio o de admiração mútua. Só posso dizer que, agora, somos dois observadores. Ela faz as mais agudas e ferinas constatações e eu as anoto avidamente.

 

Nada como andar com uma verdadeira alma ao lado

Quarta-feira
Jul102019

Fogo e Gelo

Eu não conseguia ver as coisas direito na paisagem nublada de um dia fátuo e enevoado. Sei que o dia convidava à solidão, sombria solidão soturna de um sol debruado em gris; pássaros graves gritavam no campo de grama opaca de luz e orvalhada de geada desfeita, gotas de suor da natureza que insiste em brotar mesmo no vazio do Nada absoluto. 

 Meus passos soavam como o caminhar em galharada, tão secos os ramos desgarrados das árvores batidas de vento em lufadas enxutas e disformes. Restos de folhas secas, plantas aflitas com braços erguidos de frio e surpresa combinavam sua aridez à minha; pouco tempo restava, então, para que eu atingisse a meta, seguindo o fio da meada das rotas dos pobres bichos que andavam em manada à busca de ares menos inamistosos. Eu seguia, então, o fio de minha Penélope que me guiava através do eclipse com seu riso e charme, em verdade minha única riqueza ali era saber que ao fim de tudo, eu cingiria sua cintura em meus braços, eu beijaria suas faces rosadas e me aninharia em seu ninho de calor e graça. 

Calor, ah, calor, graça abandonada enquanto o ar rarefeito se compacta em nuvens de palor e ondas de partículas esgarçadas de luz e prata! Quantos dias andei assim, à roda, seguindo os rastros de bichos erráticos para enfim determinar num compasso que não andava mais que em círculos esparsos de espirais de bruma que eu via partirem do Infinito ao Não? Tal era a importância da rota tracejada, dos mapas que eu recebera em mãos de minha musa, em meio ao frio das fontes congeladas de meus tempos sem perdão...! 

Estendo a mão à frente, capturo um instante (talvez seja a dor, talvez o amor distante, talvez o sonho, o delírio final) e quem sabe encontro a placidez de suas finas mãos entre as minhas, geladas de tamanha nevasca. Amor, ah, o amor que nunca degrada, orgulho que sabe a paixão, mas que sobe em ânsias ao rosto, acima do chumbo dos cirros e nimbus, bem além da fúria destemperada... 

Esperem!...Vejo que chego quase ao fim da jornada, eis que vejo uma bruma coagulada, um algodão sobre um espelho, a superfície de uma lagoa esperada; o frio levanta vórtices, eu vejo que a sombra do mundo talvez repouse ali, bem no meio da fonte que se espalha em regatos; meu amor, chega enfim a hora de lançar loas ao sol que nos escapa, talvez, por questão de segundos, uma réstia que adorna o céu acima, a jóia que se refestela por sobre os campos de colunas de vapor! 

Não lhe vejo, só contemplo o rosto que sonhei por meses, por anos, por séculos, por vidas inteiras em que me furtei a lhe procurar; sei que as vidas não me pertenciam, como não pertencem a mim os seus passos, enfim...E da fria superfície do lago, evolam os perfumes da aurora em que sempre vivi ao seu lado... 

Agora eu sei que, apesar de chegar ao prumo, nunca encontrei o seu rumo, nunca estive tão longe do que eu achava ser meu. Nunca houve jóias mais ilusórias que estas...Mesmo os mapas agora desfeitos...Mesmo as quimeras mais voláteis... 

Ergue-se do fundo o cálice, eivado por mão misteriosa, dourada sabe-se lá por quais magias; sei que é a ele que eu queria, é na sua borda que bebo agora, é em seu corpo que estreito os dedos, é de suas lonjuras que eu sorvo minha saudade. 

Acho, então, que chegou a minha Hora.

Quinta-feira
Jul042019

O Centro Da Cidade

Caminhando pelo Centro da cidade de São Paulo. Muita angústia. Medo. Vendo todos aqueles coitados pedindo esmola em todas as bilheterias é triste!!! Tristíssimo...Mas o que me comoveu mesmo foi ver a velha caindo no chão chorando. Isso porque um policial tinha dado uma bastonada no seu neto que foi "importunar uma mocinha" que estava na fila do bilhete tríplice, o bilhete das multidões. A mocinha o acusou de assédio e tal, o guarda solícito o reprimiu, o menino de doze anos tombou e cortou o queixo e a avozinha, morta de fome e tristeza, caiu chorando ao chão.

--Piedade! Piedade!!
--Ajoelhou, tem de rezar!

Outros se coçavam, a infestação de piolhos está geral aqui no centro, com os imigrantes da Venezuela e com os nigerianos veio o incômodo. Mas o Brasil é mais que isso, eles se amontoam nas praça da Sé e ficam pedindo...Desconfio até que a senhorinha ajoelhada deva ser de fora, porque fala num sotaque de outras plagas.

--Reza, reza!
--Ave Maria, llena de graça...
--Abuela, abueliiitaaaa!!!

Comoção na estação, o brutamontes pega na cintura o taser, começa a distribuir choques; eu mesmo quase tomo um!

--Filhodapuuuuuuta!
--Gambé! Gambé!
--Sai pra lá!

Confusão geral. Quebram os vidros e ouço um tiro, é a "Sangue no Olho" entrando na Praça, eu corro. Desgraça pouca é bobagem...

--Corre, corre, senão vai em cana!
--Gambé! Gambé!!!

Bastonada geral. O menino foi pedir esmola, a mocinha gritou, virou assédio e pandemônio, a avozinha ajoelhou depois do neto cair, todo mundo rezando, os nigerianos correm apavorados, a avozinha morreu.

--Abueliiiita!!!! Abuelita mia!!!!!!
--Circulando, circulando!!!

Muitos pedintes; todos doentes. Um dos usuários oferece uma espécie de cachimbo eletrônico:

--Novidade, tá ligado? Novidade!

Alucinado, olhos fora das órbitas. Um vendedor de laranjas se mete a besta com outro policial: Jogam suas lindas laranjas ao chão, correria...Eu mesmo peguei uma e devolvi: Levei um tapa! A polícia não quer saber quem é quem. Meu olho está roxo, eu ví na loja de celulares roubados. Quero ir a um sebo cheio de DVDs antigos e livros idem. Tento entrar mas ninguém nem vai nem vem...Uma loucura total.

Caminhar no Centro de São Paulo é arriscado em 2048; eu hein! Vou voltar pro meu Kitch...18 metros quadrados! Paguei caro, mas durmo bem com meus quatro inquilinos.

--Vai umzinho?
--Señor, señor...Ayuto...
--Olha a jóia! Compro ouro à vista! Serve seu dente, sua aliança, serve até sua rapina! Ouro ouro ouro! Gargantilhas, compro e pago já!
--Casas Cury, dedicação total ao guri!
--Moço, me dá comida...
--Olha a água mineral, mineral, mineraaaallll!
--Veja aqui sua sorte, deixe o louro prever seu futuro...Vai aí, menina bonita?

Um bambo passa e olha de soslaio, um cambaio frouxo cai de boca na grama, a moça tira a sorte e perde a carteira.

Vou é me pirulitar.

Quinta-feira
Jun062019

Bicicleta

Contemplando o céu, varrido por ventos e com nuvens mutáveis conforme os pensamentos, o menino divagava. Tinha seus nove anos e a bicicleta pequena que ganhara do pai o fazia feliz, porque fora um belo presente. Sua mente em formação aceitava que as nuvens pudessem ser algo mais do que evaporações e emanações da Terra, seu planeta natal. Nada existe fora da Terra, imaginava ele, porque eu estou aqui, agora e penso nela, portanto sou fruto dela e posso voar junto com as nuvens, divagava o menino. Ele tinha orgulho do pai e carinho pela mãe: um trabalhava sem medidas para dar aos filhos (eram três) o que ele não pudera ter quando garoto; outra não media esforços para dar aos meninos educação e bons modos, oferecendo o que tinha como antiga professora que fora. Normalmente era severa e mais ainda com ele, de modo que as fugidas que dava ao parque próximo de sua casa—era um apartamento—normalmente lhe traziam reprimenda. Normal. 

Ele era introspectivo. Preferia brincar sozinho e em casa seus brinquedos eram arrumados, seu quarto impecável e sua escrivaninha estreita era trancada a chave, pois os irmãos volta e meia roubavam de si papéis de desenho e lápis que depois apareciam quebrados ou mordidos. Adorava a Natureza e examinava à luz de lentes os pequenos seres que silenciosamente constroem mundos paralelos aos nossos, em civilizações infinitesimais que o fascinavam. Imaginava a vertigem de ser minúsculo, olhando as nuvens sob a perspectiva do infinitamente grande: será que pensavam aqueles seres sobre a própria existência e sua finalidade? A vertigem então o tomava porque, quando o invadiam estes pensamentos, ele tentava se relativizar ao Cosmo perfeito que o cercava e vislumbrava sua pequenez, sua pequena e incipiente filosofia se formando enquanto poderosas mentes já haviam esquadrinhado o Universo próximo sem as respostas tão necessárias a perguntas decerto formuladas. 

Ele adorava descer a avenida com a bicicleta a toda, com o vento a lhe esfriar o rosto e erguendo seus cabelos finos. Não se importava de cruzar carros no caminho que lhe buzinavam, era a aventura em si que valia; chegava ao parque enregelado de medo vencido e de nuvem coagulada.E parava, olhava o céu de novo, entremeado das copas dos eucaliptos que bramiam suas falas tristes de árvores presas a terra. Quem diria que elas pudessem sair de noite e visitar suas vizinhas antigas e tomar chá com elas nas noites de frio? Ou achavam os tolos que elas não conversavam entre si e até se desafiavam para ver qual seria a máxima altura que alcançariam? O sol nas copas das árvores embevecia o menino mirrado e resistente, braços magros estendidos à frente, segurando as manoplas da pequena bicicleta que o ajudava a desvendar seu pequeno mundo em formação, cheio de fantásticas criaturas, de minúsculos impérios e maravilhosas proporções. O que alcança uma criança que já pensa que existe, logo pensa? 

Crianças são felizes e tomam o mundo como uma extensão do seu e o dele, particularmente, era feliz. A felicidade, o que é? Será um estado do ser ou será a velada forma do inefável presente nas pequenas coisas e nos grandes movimentos? Quando a Terra gira na imensidão em torno do astro luminoso, será ela feliz? O Sol, girando em uma galáxia gigante, será feliz? Não do modo que sentimos, porque partindo de moléculas, somos energias condensadas e refletimos sobre o mundo que nos cerca. Assim fazia o menino em sua bicicleta simples, suja nos aros da lama das ruas e arrepiado pelo vento que lhe batia nas têmporas. Quando passou por uma das ruas, viu dois funcionários dentro de um bueiro, sujos da mesma lama que emporcalhava suas rodas. Os dois tinham semblantes sombrios e olhavam com raiva a sua passagem: Por qual razão um moleque destes passa rente ao bueiro e nos olha assim? Podia ser ele aqui dentro e eu ali andando. Mas meu destino era para ser assim, pensa o funcionário, com a lama na alma que é a mesma que suja as rodas da bicicletazinha do pirralho olhudo. 

--Raspa fora, piolho. 

O menino não conhecia piolhos, só ouvira falar que dá na cabeça. Talvez fosse uma maneira carinhosa de dizer que ele infestava a cabeça da terra, essa casca que o sustentava em seu vôo pelas ruas. Quase pegou uma senhora que se preparava para atravessar a rua calma até então. 

--Demônio! Quer me matar? 

O menino sabia não ser piolho, muito menos ainda ser demônio, de modo que, incontestável, entrou no parque. Parou a bicicleta, requentado pelo sol maravilhoso que delineava as compridas sombras das árvores e foi quando ouviu a voz esganiçada de outra criança, mais nova que ele; foi quando ouviu também a voz da mãe do menino a lhe dizer:

--Olha, filho, olha o menino feio. 

Já aprendera muito de si com este feliz mundo de Deus, que orna a orbe celeste com sua azul luz e onde Gagárin, do alto de sua Soyuz, disse: 

--É muito lindo e não vejo Deus nenhum daqui. 

O menino aprendera que era um piolho demoníaco e feio, só por andar de bicicleta sozinho, nos ares que Deus deu para ele respirar. Não há quem suporte a felicidade pura, há somente infelicidade, ele raciocinou sabiamente, qual filósofo. Quando chegou em casa, recolhida a bicicleta, olhou longamente seu quarto em ordem, ouviu seus irmãos quebrando os brinquedos na sala, olhou sua escrivaninha fechada a chave, viu o chão manchado do corredor por tinta de seu tinteiro, abriu a escrivaninha e pegou uma folha branca. Pegou a caneta que tinha orgulho de usar porque fora presente de seu pai e garatujou nela:

 --No Princípio, era o Verbo...

Quinta-feira
Mai302019

Lucidez

--Eu prometo que vou melhorar.

 

A sala vazia repetia seus ecos e a televisão chiava seus rumos caóticos ligada num filme chinfrim de sessão da tarde. Não sei o canal que era, eu sei que ele, embasbacado, via as imagens zombarem de seus olhos injetados de tanta lucidez, porque esta é uma raridade hoje em dia. A lucidez é um eco de um sentimento inócuo e vazio, a vacuidade de tudo. A lucidez é um luxo, ainda mais nos dias de hoje: Tudo o que se faz é apelar ao perpétuo desassossego, ao massivo, às superfícies opacas. Tudo o que se faz é o mergulho raso, ele pensa lúcido. Ninguém procura mais o mais profundo, o mais significativo, nada de muito simbólico; todos se abstêm na hora da escuta e, seletivamente, por facilidade, quase todos querem que o Outro se foda. Ele, ali, lá, na ponta do sofá desequilibrado por falta de um peso ou por fratura de um pé, não se dava ao luxo de reparar que seu baço mundo tinha uma tortuosidade que ele achava normal.

 

Não, não estava tudo normal, porque os substitutos de sua vertigem eram a ignomínia, a mentira, a falsidade, o ocultamento, o velamento. A sua filha ralhava com ele:

 

--Mas, pai!!! Você precisa ficar muito louco. Sua vida é um vácuo! Nada do que faça o surpreende; Fica, aí, lúcido de todo! Muita caretagem! Precisa ter coragem, sair, dar umas cheiradas na esquina...

--M..M.mas, eu não consigo!

--Como, não consegue??? Como não??? Que caretice. Velho, sua vida é um plágio de sua verdadeira vida. Que é isso, pai? Pessimista! Tem de devanear, viajar na maionese. 

--Eu? Estou tranqüilo aqui. Com meus discos e meus livros, e nada demais.

 

A filha, mais do que nunca, bufava do outro lado.

 

--Mas, pai!!! Porra, meu! Fica aí, vertiginosamente lúcido, pensando no ser e no nada, lendo Sartre enquanto o Muro não vem e fica nauseado de tanta queda!!! Não dá! Precisa subverter a lógica de seu mundo Kantiano e entrar numa de Spinoza, ou Baruch, se me permite; tem de versatilizar seu cotidiano! Imagine! Tão lúcido e tão grave!!! Tem de...Espiritualizar, espalhar uns aromas, criar um gato de Alice, ir fundo no buraco do coelho...

 

Ele, com o telefone na mão, coça a barba rala e pensa que a filha tem, de certa forma, razão; afinal, com a idade, soma-se ao tempo a voragem da morte que se avizinha e ele, sufocado, via o tempo passando entre os dedos de forma irresistível ( tudo o que o homem faz é tentar conter numa barreira os momentos indeléveis do Infinito, em gotas que se condensam pesadas, mesmo no chuveiro...).

 

Talvez por isso sua mulher o abandonara, por excesso de razão, por enxames de lucidez, por abuso de rotinas secas...Ela fora viver com a filha e ele, acuado, ficara no apartamento atulhado de livros e anotações que ele nunca usava para escrever.

 

Anotava tudo que lhe dava na telha, em pacotes de informações que ele achara úteis um dia, mas que não passavam de recordações obsoletas como sua infância.

 

--Eu prometo que vou melhorar!

--Diz isso, mas continua aí, imerso na lucidez eterna!

--Olhe, fiz um progresso...

--...Que foi desta vez, pai?

--Bebi Absinto.

 

Silêncio do outro lado. Ouvem-se rumores de risadas, palavras esparsas, “ridículo”, “idiota”...

 

--Absinto?

--É. Escrevi um conto louco, em que uma filha liga ao pai atoleimado pedindo que ele seja mais lúcido, porque ela está cansada de vê-lo dar vexames nas festas onde se embebeda de tudo, menos água. A filha lhe diz que ele deve tomar prumo, senão o interdita; diz que ele está ‘dilapidando o patrimônio “e que ela “não vai permitir que ele esbanje o que sua mão trabalhou para juntar” e vai por aí...

--Muito bom!!!

--Não disse que estava melhorando?

--Vejo uma luz ao fim do túnel, pai!

--Então gostou?

 

Ouvem-se barulhos ao fundo...Dir-se-ia alguém fazendo cócegas, a voz da filha fica embargada...

 

--...Não, não...

--Que foi?

--Nada, nada. Não foi com você, pai. Tenho de desligar agora...

--Então, durma bem. Fume umzinho e lembre-se de mim!

--Okey, pai. Beijos. Ah, mamãe mandou lembranças. Não esquece das contas.

--...Impossível esquecer.

--Tchau!

 

Filhos! Absinto! Muros, gatos de Alice, náusea...O Buraco de Minhoca, o tempo condensado em segundos, o Atol, as ondas. Lá longe, o farol. Nunca foi tão difícil disfarçar a loucura em meio ao mar de insânia, cercado de translúcidos de todos os lados! O farol! Ah!

 

Lá fora, o sol permanece. Dizem que ele queima os ratos nas ruas. O sol divaga em céu escarlate, ao fim da eterna tarde onde vive agora, preso a uma mesa que o envolveu com seus nódulos de madeira. A máquina está lá, com a folha rodada, uma palavra isolada bem ao meio da página:

 

------------------------------------------------------------MORTE-----------------------------------------------------

 

E ele não sabe onde começa a Vida e onde termina a finitude.