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Quinta-feira
Jan262012

Um Caso Estranho

Lá fora, uma paisagem condizente com a situação: Árvores cheias de folhas caindo, ventos varrendo as ruas, pessoas com guarda-chuvas cinzentos, como que aprisionadas num sonho. De pé, encostado a um tronco de Pau-Brasil(ainda com flores amarelas em agonia), um velho fumava ritmadamente, maquinalmente, como se ao olhar à distância, algo em si se ligasse e ele relembrasse, a todo instante, que deveria estar ali, naquele momento, onde as ambulâncias passavam expressas e de sirenes desligadas mas velozes, quase sumindo de tão rápidas. Um casal passava de braços dados: Ele, alquebrado(evidentemente envelhecido, algo nos dava a impressão de que era absorvido de dentro para fora) e ela, carinhosa, o amparava em trêmula marcha. Iam ao encontro do metrô, a pouca distância de onde eu me encontrava. Passou um vendedor de bilhetes de loteria, dessas que prometem mundos e fundos, mas que nunca se ganham. Ia o vendedor, guimba de cigarro pendurado ao lábio, como uma pequena cauda de rato; Eu nem o fitei porque, sem dúvida, achando que lhe daria a atenção, viria ele com a fauna toda a me prometer "a última barbada", o número da transformação! Pois sim! De números não os quero mais perto de mim. Os números servem para nos acorrentar, somos números ao nascer, tornamo-nos números e somente números nas estatísticas oficiais, temos alguns deles a nos perseguir até ao último suspiro...Que o diga eu, à procura de um número, um sinal de que talvez ela ainda existisse, a minha linda amiga, se é que se pode chamá-la assim, depois de tudo o que aconteceu.

Eu tenho um pepel à mão, um papel que traz um número, uma ocorr~encia que eu registrei agora há pouco; lá, onde fiz o tal nefando documento, orientaram-me a vir aqui, neste lugar frio, onde cheira álcool, formol, fumaça de cigarro e pestilência humana. Sim, o lugar chega a ser pestilento. Alguém me disse que as paredes guardam nossos mais íntimos pensamentos, num registro não-gráfico de todo e qualquer ato ou ação que se possa fazer. Imagino o que aquelas paredes, naquele ambiente escuro, mal iluminado, têm a contar. Há duas pessoas ali, além de um funcionário que conseguiu conquistar a tão desejada invisibilidade, pois que só o percebo quando ele passa um pano cheio de furos roçando os bicos de meu sapato recém-engraxado por um simpático moço que me cobrou dez reais por nada. Dei-lhe vinte, ele saiu todo prosa, bem ali perto, onde a Pamplona faz esquina com esta rua onde me encontro e da qual não prefiro dar o nome. Ouço uma espécie de protinhola se abrindo. Entra um rapaz mais do que sonolento(eu diria estar sob efeito de algum entorpecente, tão vermelhos e injetados os olhos).

--Boa tarde.

--Boa tarde!

O outro fica de cabeça baixa, parece estar muito triste com tudo aquilo.

--O senhor quer...?

--Instruíram-me que viesse aqui, para dar seguimento a uma ocorrência...

--...Ah, o desaparecimento.

O outro meio que ergueu os olhos, abatido, mas ficou interessado, como se aquilo o avivasse, na grande distância que nos separava.

--Por favor, acompanhe-me.

Senti um arrepio. Era a hora da verdade. Havia um corpo a reconhecer, havia uma razoável chance de ser o dela, o seu corpo, o corpo de uma maravilhosa criatura, uma linda mulher; agora, reduzido a um grito de silêncio, ao frio de uma peça de metal, ao contato de um lençol nojento, em meio a um caos de facas, instrumentos cortantes, balanças, outros lençóis e geladeiras até o teo. Confesso que me senti nauseado. nunca havia feito isto! Acompanhei o rapaz que se movia ali como se estivesse deslizando(talvez mais um fantasmático, como eu achava todos ali). Chegamos ao local do fim de tudo. Ele, brusco, intempestivo, arrancou o lençol!

--É ela?

--Não. Por Deus, não é!

--Confirma isto?

--Sim.

Um misto de repugnância e alegria absurda me invadiram, eu não cabia em mim de contentamento. como poderia esquecer a linda deusa? Ainda podia estar entre nós. Não segurei mais, vomitei copiosamente o almoço.

--Fique calmo. Muitos sentem isto aqui!

Saí da sala e voltei à estaca zero.Quando ele me chamou para finalizar o processo todo, afirmando oficialmente que aquela que se encontrava lá não era quem eu procurava, o rapaz que estava próximo ouviu seu nome.

--Como é o nome da moça?

Eu disse seu nome. Ele ficou estupefato. Perguntou detalhes dela, seus cabelos, seus olhos. Sabia o seu perfume! Sabia das jóias e em que dedos as usava. Lembrou do colar que eu lhe dera, uma jóia de cristal.Ouro e cristal, que ela sempre usava entre os seiso, às vezes só o clora ornando aquele corpo escultural. Eu fiquei chocado de início, irado ao ouvir sua descrição, mas a calma de saber que ela continuava viva de alguma forma me fêz ouvir o que ele tinha a dizer. Ele também a procurava, pois que ela sumira sem deixar vestígios, deixando mala, roupas em sua casa. Malas? Eu achava que ela gostava era de mim. Ele, bem mais alto que eu, bem apessoado, era o tipo de homem que bem admiram as pequenas, que no fundo sempre fantasiam um homem forte e capaz. Eu sublimei minha inferioridade ao perceber que ele não passava de um coitado, manipulad por aquela mulher que também me manipulara, com incontáveis mentiras indefensáveis. Ele marcara com ela há dois dias no parque das flores, ela nunca apareceu, não telefonou, não deixou vestígio. Como havia feito comigo! Ele chorava copiosamente e eu lhe disse, calma, ela não morreu, aceita um café? Ele fêz que sim, não comia nada há dois dias, de tão triste que estava--e porque ela o ajudava em sua difícil vida. Eu caminhei com ele na rua, saímos ao vento, fustigados pelas folhas que caíam. Os troncos das árvores rangiam ameaçadores, ele soluçava fundo, comovente. Eu, mais acostumado aos altos e baixos dela, ao sentar-me, senti uma paz profunda. Ele se sentou de lado, a cadeira rangeu(era forte o moço) e eu pedi dois cafés fortes e pão com manteiga. Ele aceitou, come ávido o que lhe era devido, bebeu o café lentamente, olhando a triste rua, com seus ventos e roupas soltas, as moças que passavam e que lhe traziam alguma esperança.

--Como a conheceu?

--E você, a conhecia?

--Sim, digamos que sim, era seu amigo.

--Ela iria se casar comigo. Prometeu, fizemos um trato de sangue, ela cortou um dedo e me prometeu!

Ele me contou, trabalhava num mercado, era desendente de italianos e há pouco viera clandestino ao Brasil Ela sempre comprava suas coisas no mercado em que trabalhava. Ele se conheceram assim ele lhe apresentando as frutas e ela lhe oferecendo o famoso sorriso, que ele bem conhecia. Em duas semanas já dormiam juntos, ela era insaciável ( e eu me remoendo por dentro, porque era assim comigo e com quantos mais?) e em sua paixão, lhe prometera casamento. Chegaram a alugar um apartamento, simples, mas para os dois bastava, assim ela lhe dissera, e lá deixara as malas, para nunca mais aparecer...!

--Entende? Eu não posso acreditar mais no que ela fêz!

--E eu? Posso acreditar? Ela sempre me disse muitas coisa, até mais coisas do que o que disse a você. E, no entanto...Eis-nos aqui, procurando um corpo que, oxalá seja verdade, não existe, pelo menos até agora.

--Prefiro o seu corpo animado a aquelas estátuas de cera.

Um esboço de sorriso apareceu. Eu olhei em torno, havia velhos clientes estabelecidos, gente que se desocupa demais da vida, pessoas que se moviam no espaço de suas mediocridades, pasmos, incrédulos com seu destino. Eu já notara o insistente olhar de uma jovem, sozinha num canto, esperando que eu a olhasse de vez...

--...Também prefiro que esteja viva.

--Veja, ela me ligou, há dois dias, para me declarar que me amava!

--Há dois dias, ela também me ligou e disse que queria conversar comigo, para definir nossa vida a dois.

--Louca.

--Total. Ainda acha que ela nos merece?

Ambos, em silêncio, olhávamos a toalha xadrez, de tipo português, que estava muito bem arrumada sobre nossa mesa, com seu saleiro, seu paliteiro, o porta guardanapos e o azeite, que passei no prato para comer meu pão. O dono levantou os olhos quando lhe pedi um copo com vinho. Vinho, pão, estranha missa a nossa, bebendo do sangue dela, sentindo o seu corpo em pedaços, fruindo seu perfume comum a nós dois e ambos de coração partido.

--Somos ridículos.

--Como?

--Não acha? Você, iludido por um sonho, eu enganado por uma promessa. Ela desaparecida para ambos, sem sinal para o mundo, sem nunca nos contactar.

--Sinhioire?

Era o dono do bar, trazendo o vinho.

--Mandaram-me entregar a vocês.

Sobre a mesa, um envelope. Quem o entregou? Ah, foi ela, ali--E já não havia ninguém na mesa onde havia a jovem. Eu e meu colega de infortúnio olhamos ao mesmo tempo. Engraçado, ele foi mais afoito do que eu, como deveria ter sido todo o tempo e suas mãos apressadas abriram o envelope lacrado com urgência, como se do que estivesse dentro dependessem suas vísceras, suas horas finais de vida.

"Sei o que vocês procuram. Mas não vão achar mais. Libertem-se a tempo!"

--Mais vinho?

Meu amigo agora, o companheiro de tantas eras, aquele que dividira comigo uma criatura maravilhosa, cheia de inverossímeis olhos, de cabelos qual fogo em brasa, de sardas incorruptíveis, curvas que revoluteavam ao menor toque...Ele se entregou ao desespero.

--Ma comme fai! Vafancullo, putana!

--Calma.

Suas veias dilatadas denunciavam sua ira, ele procurou ao redor à guisa de perder-se, talvez achar a causa de sua ira difusa e seus olhos cairam sobre mim.

--Cornutto!

--Ei, menino, qual de nós dois é mais?

Incrédulo, ele me olhou: Por um momento, achei que ia me surrar--e bem o podia fazer, tal o seu tamanho e tão grande era sua raiva; mas algo se esvaziou nele quando falei aquilo! Ele respirou fundo, pegou o copo e propos um brinde.

--Vafancullo, Ragazza Mia!

--Vafancullo.

Caso estranho, esse.

 

 

 

 

Terça-feira
Jan032012

O Que de Diz Por Aí

Um bom início é o que se diz, o que se fala por aí. Não digo que não tenha nada na cabeça, ou que pelo contrário, tenha tantas coisas que poucas idéias possam sair de lá, de tão emaranhadas e confusas que estejam. Sou da opinião de que se se começa a contar uma história, essa tem de ir até o fim. Meios tons, realidades subvertidas me interessam. Cores vivas, deformadas pela visão de um personagem, ou sufocadas pela situação absurda de um transeunte que vê mais que a massa média que passa, embevecida pela ilusão ou amortecida em pensamentos amesquinhados. Interessa-me o oculto, o que não se diz, o que se diz à meia boca, porque o óbvio é acachapante e todos se riem de quem consegue se desligar (e na maioria das vezes ou não dão atenção ou lhe chamam de louco). Aliás, essa história de louco. Louco, confuso, incapaz, desorientado. Desarranjado, aparvalhado. Tudo o que deixa de ser “normal” é o sonho da massa média cretina que pede para ver quem lhe chame a atenção; pois que, ao primeiro passo errado, ao primeiro pulinho, ao início do gaguejo, vem a pecha e o mais de que se faz à beça na rua e nos lares: Fala-se, comenta-se, deturpa-se porque não há mais nada a fazer em um lugar onde a superficialidade impera, onde a análise mais profunda não resiste a uns minutos de espera indecisa e onde o Outro lhe interrompe, pede desculpas e vai ao banheiro soltar um flato. È fato, não é de rir-se! Experimente conversar, por menos que seja, com um desconhecido. O camarada vai lhe olhar como se fosse um mutante; depois, pensará ser você um louco (estará falando sozinho?) e logo após, se você não se cuidar, pode vir um murro, ou um xingamento! Experimente! Nada resiste ao acachapante juízo e bom senso. Nada pode ser diferente. È o princípio da boa norma de conduta: Nunca fale com estranhos. Vire as costas a ele, se ele tentar falar. Se você for mulher e bonita, ofenda com o olhar e com palavras chulas. Se for homem, faça um gesto com o dedo médio, na janela do carro. O máximo: vai sair do farol contente da vida porque fez o que lhe mandava o coração. Todos juntos no trânsito, horas a fio e o máximo é mostrar o dedo médio para o impaciente que buzinou ali atrás. É fato! Olhe para o menino no parque. Sua mãe, jovem ainda, está num banquinho, sentada e teclando num celular e o pequeno está a ponto de cair num bueiro. Mas ela tecla e grita “Michel, cuidado” e continua teclando, sem ligar ao sol na cabeça, o céu sem nuvens e ao menino sem credo. Ah, nunca tente ajudar o menino, o máximo que vai conseguir é um grito dele e sua mãe despertará qual abelha africana, novamente a lhe xingar. Capaz de alguns espertinhos aproveitarem a deixa para saírem esmurrando o agressor de criancinhas. Capaz de o moleque cair finalmente no bueiro e os cretinos mais a mãe de telefone em punho, todos correndo atrás do pedófilo agressor que ousou querer ajudar o menino antes do buraco escuro. É o máximo! Fuja, seu empedernido, cruel acólito das artes das profundezas, vil mercador dos instintos mais bestiais e perversos, fuja, porque o menino agora sumiu vítima da incompreensão alheia e pelo menos suas mão estão limpas. Um bom velhinho lhe vê correndo, sob o sol da tarde e sutil estende a perna para que você tropece, mas seus reflexos ainda são rápidos e ele lhe mostra o dedo médio dizendo “pega ladrão” e você precisa se esconder, seu louco pervertido. Melhor sair daí, continue sua análise comportamental em outras paragens, aqui o ambiente está muito amistoso, quem sabe numa fila de lotação ou fila de caixa de banco, ou quem sabe um ponto de ônibus bem ao torrar da tarde crua? Como quem não quer nada, estenda um jornal de maneira a ler as notícias, de forma que todos no ponto as leiam, ou de soslaio, ou desavergonhadamente; de graça, até ônibus errado, é o que se fala? Um bom começo, como ao início. Experimente fazer cara de maus bofes ao ser lido! Uns debocharão, outros cochicharão (e voltamos à principal atividade da mente média) e os mais afoitos chegarão a dobrar a página para ver as notícias de futebol ou das artistas preferidas. Todo mundo quer o céu, mas ninguém passa pelo purgatório e você é que paga a passagem. É o que se fala por aí. Não é de rir-se, é fato! Sabe-se de mais de um ou de outro que por menos que isso deixou alguns fragmentos de si ao ar de mais de uma avenida. È fato, não é de rir-se, é o que se fala por aí.

Sexta-feira
Dez302011

Sangue de Boi

Fim de ciclo, as pessoas agitadas correm as ruas revisando as rotinas que os prenderam a mais um ano de tempo, este signo inventado pelo Homem com seus calendários artificiais e superficiais.  O verdadeiro Tempo, o que escorre entre os dedos do próprio Homem,este todos esquecem. Acovardados,escondem-se atrás da "falta de tempo", do "tenho mais o que fazer", "muito trabalho pendente" e aí, isto serve de escudo contra todos os encontros dos quais ele foge. O Homem foge de si mesmo e tenta compensar a escuridão de seus próprios processos internos sufocando sua Alma com os mais diversos aparatos; não uma, mas várias vezes, ele surpreende a amada com uma jóia rara--e no entanto, na calada da noite, rói-lhe uma lágrima que ele oculta, na dor do que não é e nem jamais será vivido. Escusa-se o Homem, a civilização não cessa seu movimento porque passa uma raposa na linha de um trem-bala.

Mais fácil a vida desaparecer em vapor vermelho.

Tal não era o momento de se repensarem os valores? Uns e outros se contentam à solidão de imensas casas. Ligam suas televisões e a voz do apresentador do jornal enche a sala de más notícias, que eles saboreiam à meia-luz com um cálice do vinho de um Cristo esquecido. Oh não, Homem insano, que mais poderia querer senão ver as negras ondas de tua ignorância extrema invadirem casas, ruas e morros? Já não seria o tempo de sua alma bater asas e fluir num céu brilhante, cristalino, como de há muito devia ter sido e nunca foi? 

Fim de um ano, motivo de espera. A noiva espera no altar, a filha relembra do pai, o relógio ressuma as horas fatais. A raposa caminha nos trilhos e avança ao som do aço destruidor. Todos levantam a taça, bateu Meia Noite, as máscaras caem na orla de um sonho. Os passos são ocos, corre o Homem atrás de sua sombra e é ela, somente ela, que destila as intenções do Outro, este Homem esquecido de si mesmo, nos cacos do espelho de outrora, recortado a si mesmo pelos esplendores de um Tempo que já se foi.

Na mesa, eu apanho o guardanapo e esbarro na taça, tilintam cristais no frenesi das bocas ávidas. Eu de minha parte tenho dúvidas; Também, quem mandou me aprofundar em terreno tão pantanoso? Quem se importa?

--Complicado, você.

--Saúde!

Sexta-feira
Nov252011

A Pescaria

O barulho do mar, batendo nos costados dos barcos ancorados ao largo, no porto sob o sol seco de Setembro, era um eterno borbulhar. Ondas entravam na baía e deixavam riscas de espuma em grandes faixas;gaivotas faziam vôos rasantes, numa eterna e sonolenta procura pelos peixes desovados na praia pelas gigantescas redes de pesca. Eu saboreava um cigarro, desses que se vendem em lojas de pequenas quinquilharias, onde aos maços se misturam pentes, cortadores de unha, estojos de coser roupa, carteiras baratas, espelhinhos de cabelo e brinquedos baratos. Tragava e a fumaça poderosa, espessa, penetrava nos pulmões, saciando minha sede de nicotina.

Se havia uma imagem do Mal, essa era a imagem das redes traiçoeiras, enredando os peixes como se almas perdidas fossem , atraídos pelos alimentos do fundo da baía e arrastados à desgraça por uma força irresistível, maior que a de suas pobres nadadeiras. Nada podia deter o arrastar movido a braços musculosos, gritos que começavam ao longe, luzes nas pontas das redes.

--Miguilim, apruma aí, apruma aí!

--Arrasta mais; puxa! Puxa que vai escapar!

Vinha a multidão, cada qual num pedaço de rede, levando os pobres seres marinhos em sua passagem; os mais fortes saltavam, pulavam por cima do cordame que era aonde estavam as mãos dos pescadores. Não só uma vez, mas várias, eu mesmo vi golfinhos devorando em pleno ar sardinhas que pulavam para fugir de um inferno maligno ao purgatório negro dos dentes devoradores. Apruma aqui, grita outro acolá, mais um que quase se afoga(de novo) e chega a rede fervilhando de vida e brilho. Sim, luz, algas marinhas que preenchem os vazios na mistura de barbatanas, nadadeiras, espinhas, peixes-espada; polvos se arrastam com dificuldade, milhares de siris transtornados tentam ferroar as mãos que os prendem em grandes ganchos.

Não me cansava de ver as águas vivas rebrilhando em pulsos estranhos, em espasmos de cor variegada, entre o âmbar e o azul, o verde fosforescente e o amarelo. Notei a presença do taciturno homem ali, bem ao lado da rede, a olhar para o infinito. O que chamava a atenção era sua altura, alto e magro, a reserva nos modos, o olhar que estava entre a indiferença e o sonho.

--Miguel, puxa mais a sua parte! Puxa!!!

--Incrível como o mal está em toda a parte.

Era o estranho homem, vestido de um sobretudo cinza que serviria num mar chuvoso, mas à beira da praia, naquele calor da areia que já se insinuava, dava-lhe um ar lúgubre que bem ornava com as palavras que acabara de dizer.

--Refere-se à rede?

--Ela é só uma parte da idéia. Eu digo que o mal está em toda a parte, senão o que estaríamos fazendo aqui, contemplando estes seres desesperados que tentam de todas as formas sobreviver? Do ponto de vista deles, somos a própria encarnação do mal, quando na verdade somos intermediários; apenas cumprimos os desígnios de uma força maior, que determinou que se fizesse a rede, que os capturou a todos. Esta sim é a força maligna.

Eu traguei mais fundo, antes de virar-me e contemplar verdadeiramente seu rosto sob a sombra da noite que terminava.

--Isto o incomoda?

--De jeito nenhum. Incomoda-me como nos acomodamos à idéia do mal necessário. Justificamos tudo pela sobrevivência. Precisamos de comida, logo fazemos a rede. Logo se justifica tal mortandade--porque este inferno não se justifica senão pela fome que pretende combater.

--Mas se assim o é, como faríamos para combater a fome?

--Já ao início, se apenas pescassem o que fosse preciso e devolvessem os pobres seres ao mar que não iriam consumir, fariam melhor. Mas não: Destroem todas as formas que desconhecem, em nome do progresso, do combate à fome, em nome do dinheiro que precisam ao fim de um mês. Para quê?

--"Jesuíno! Traz pra cá, traz pra cá."

--Eles nem sabem, mas o mal os persegue até a raiz. Na raiz de suas vidas já brota a semente da escuridão. No alimento que consomem, no peixe que nada até a exaustão, medra o sonho do espelho invertido de suas vidas...

"O que é o mal? É esta perversão, este frenesi em que se refestelam os homens, numa busca louca pelo que sobra e pelo que lhes agrada. Degradam a tudo, mancham de nódoa as águas puras do mar e empesteiam o ar com suas nuvens de tóxicas fumaças. Este é o mal, o mal moderno, progresso a qualquer custo, apego ao mínimo vintém desalmado. Esta é a essência da perdição do Homem."

"Em nome do poder, nações se levantam entre si; duelam em frágil batalha, da qual saem todos perdedores. Podem destruir o planeta milhares de vezes e continuam acumulando acima de suas cabeças os mais perversos instrumentos do caos. Voam impávidos em todas as direções, assoreando os rios da vida e enchendo de sujeira até os mais ínfimos abrigos onde ainda poderia medrar um brilho em suas almas."

"Esse é o mal"

O mar mostrava ao longe estranhos ruídos, como se protestasse contra a nova colheita covarde que se lhe fizera. Quebravam ondas mais altas nas margens da baía e o vento eriçava as águas profundas. O ar em rajadas anunciava nova tempestade, os pescadores se apressavam porque ainda a rede assomava do mar em carrancas ameaçadoras. Um peixe negro voou nas ondas que se avolumavam e mais de um pescador pensou ouvir um grito de mulher. Cheios de superstição, muitos se persignavam.

"Esse é o mal", ecoavam as palavras do sinistro visitante, que eu já não via mais. Eu o vi se afastando, como que fugindo.

A rede trouxe o corpo de uma moça desconhecida, pálida e linda, e estava como se dormisse.

Ninguém se atreveu a tocá-la. No silêncio que se seguiu, alguns julgaram vê-la abrir os olhos.

Quarta-feira
Nov092011

A Luz do Alto

 No dia quente de Novembro, entre nuvens que teimavam em ocultar um sol inclemente, o avião sobrevoava aos solavancos a capital do estado que ele escolhera para viver, ou melhor, como ele pensava amargamente, que o fazia sobreviver. Nada lhe lembrava os dias de antes, somente a cega sensação de vitória que ele podia ter, ao decidir abandonar tudo em nome de uma vida nova, adiante... Ao seu lado, um pequeno homem de óculos ensebados e evidentemente apavorado com o sobe-desce do aparelho remoía umas orações inúteis(ele as abandonara há tempos; percebera sua inutilidade ao perder as pessoas que mais amava sem apelação, sem dó). Nos olhos do homem ele conseguia ver um fervor, uma fé de que aquilo logo acabaria. Ele podia vislumbrar nas pupilas dilatadas dele o respeito que ele já não mais tinha pela divindade muda, que daquelas alturas vislumbrava seu poder de vida e de morte sobre os pequenos de todo o mundo e se comprazia disto.

 

Quem não gosta de ser idolatrado, incensado?

 

Um solavanco, mais rezas. Outro solavanco, a moça ao lado soltou um pequeno grito. Mais um e uma criança começou a chorar ao fundo. Começou a recear pela sua vida, a única que tinha, tanto ainda a descobrir naquele pedaço de terra que lhe coubera e onde palmilhava ainda; não seria agora que se renderia ao céu inominado. Ele olhou o relógio, estranhamente luminoso naqueles minutos intermináveis; passava das onze da noite, fazia quinze minutos que entrara nessa máquina e que o avião decolara rumo aos lugares que ele pensava jamais poder ver. Bem que a previsão de tempo fizera um lúgubre aviso sobre “possíveis turbulências, ondas de até quatro metros no litoral e chuvas torrenciais no norte-nordeste”. Ainda havia assuntos pendentes, havia ainda a mudança de suas coisas do antigo apartamento — era o acordo com sua ex-companheira; ele lhe deixava tudo e levava algumas coisas das quais fazia questão: Livros caros, discos raros e fotografias de tempos dos quais ele já não fazia questão de se lembrar. Levava também uma máquina fotográfica com a qual pretendia documentar suas mudanças. Um computador de mão que lhe servia há anos. O resto, móveis, roupas, nada levara. Só queria a escrivaninha que lhe era tão cara (presente da avó falecida que lhe dera em tempos de fartura).

 

Mais um solavanco.

 

--Puta que o pariu!

 

O sonoro palavrão fora proferido pelo homenzinho ao seu lado, as mãos crispadas até o ponto de ficarem brancas nos nós dos dedos. Uma faceta nova que ele descobriu nas pessoas ao seu redor fora que, fragilizadas, se sentiam solidárias, tanto que, quando as coisas se acalmaram e cessaram as brusquidões e quedas, palmas se ouviram entre aliviados rostos. A divindade resolvera poupá-los, rindo-se nas nuvens abarrotadas de chuva e ventos ocultos. Resolveu ir ao banheiro e no caminho, frenéticos preparativos entre os comissários faziam entender que eles precisavam servir o lanche logo – talvez para saciar a fome dos que ainda conseguiam senti-la depois de toda a revolução que se abatera sobre eles. Olhou pela janela, um sorriso nos lábios da moça que fitava embevecida as nuvens se esgarçando e descobrindo pequenas gemas que surgiam abaixo, como diamantes iluminados por dentro, em grandes colares que se juntavam à medida que o aparelho se afastava rumo às alturas.

 

O tilintar de copos se fez ouvir enquanto ele passava uma água no rosto, visivelmente relaxado. Saiu do banheiro e sentiu o bafio no rosto, um cheiro de gente amedrontada, misturado aos humores do lanche e ao odor das bebidas que eram servidas. Novamente, sentiu no rosto olhar da moça da janela. Não, ele pensou, já não. Não havia porque agora se envolver assim, não ali numa altura impensável, a quilômetros do solo, voando em velocidades insuspeitas. A vitória do Homem era ilusória, as gargalhadas do mundo se avolumavam lá atrás, por onde haviam passado há minutos e que por onde passariam outros, e mais outros, e mais outros até que um seria ceifado, sem dó, como todos a quem amava e idolatrava.. Decididamente, não.

Ele lia um livro, já desde o solo; o livro tinha interessante textura, capa dura e colorida. Ele se acostumara a ler desde pequeno, desde criança. Sua avó, primeiro e sua mãe, após algum tempo, percebera nele que havia vozes a quem ele devia dar corpo, na forma de histórias. Não foi sem fascinação que ele devorara livros de mitologia, histórias e fábulas. Ele mergulhava nas histórias e quando via, estava lendo há horas. O dom de escrever pulsava nele, encoberto pelas suas obrigações e pelo seu trabalho. À medida que foram passando os anos, desabrochara irresistível, sem nenhuma possibilidade de ser encoberto. Passava então noites e noites escrevendo furiosamente, aparando as arestas do texto, cortando palavras inúteis e deixando mais comedidas as falas de certos personagens que ele deixava fluírem por seus pensamentos. Finalmente, conseguira dar voz à algaravia que o habitava, dando vida aos seus fantasmas, colorindo suas dores que até então não sentira por anestesiado que estava pelas obrigações da vida. Então a moça o chamara e por inútil que fosse, ele olhara de lado, assim de relance e os olhos dela brilhavam de novo, como os seus já o faziam enquanto devorava ávido os espaços do ar que o habitava então.

 

"--Não sente falta de mim?

--Não; prometi esquecê-la. Quando eu quero, eu faço. E vou esquecer você."

 

Na última noite em que se viram, quando ele já sabia que seu destino era outro, ele a deixara no quarto dormindo e pusera as roupas silenciosamente. Precisava partir, precisava manter o seu plano de nova vida; precisava respirar o que ainda tinha, nem que fossem as golfadas de um moribundo. No vasto mundo que havia a explorar, sua mente vagueava em mil caleidoscópios, num delírio de noite mal dormida. Ela ronronava, a respiração calma e ritmada, após a noite de amor que ainda os retinha. Ele, roupa posta, chaves na mão, olhando a janela do apartamento dela, a neblina lá fora, o sorriso dela feito um vapor de boca condensado, as últimas gotas luminosas qual contas de vidro cheias de luz própria, luz de uma outra existência(a que fora dela, a que ele compartilhara e a que ambos seriam obrigados a suportar agora, apartados um do outro, sem mais amarras dolorosas e desnecessárias). Ela remexeu-se na cama, sob o cobertor (ela era muito agitada no sono) e ele temeu que despertasse antes da hora e percebesse sua ausência, o que faria aumentar seu sofrimento. Já com uma ponta da agulha no peito, ele ainda de relance pode ver que da janela, um rosto pálido o olhara, justo no instante em que ele ligava o carro e se punha em movimento, enquanto nascia um sol no céu frio e sem nuvens daqueles dias secos.

 

--Bebida, senhor?

--Uma água mineral, com gás.

--Água mineral?

Quem perguntara fora o pequeno homem ao lado, sempre de mãos crispadas.

--Sim, não bebo.

--Eu estou bebendo. Só assim!

 

A seguir, o assustado homenzinho disparou a falar de seus medos todos, de suas filhas que estavam lá embaixo, misturado a promessas confusas de que jamais viajaria de novo, que é que eles estavam pensando, qual o quê, poderiam bem ter mandado um outro, mas não: Era sempre ele que ia defender as cores de sua empresa. Nem se fosse dono ele teria tanta vontade de vestir as cores de seu time, ele dizia, com um estranho cacoete...Ele queria retomar a vida lá embaixo, queria ter viajado mais com suas filhas; queria ter tido tempo e oportunidade de dizer isto  a elas, à mãe delas, à sua mãe. Agora, nesta altura, impossível!

 

--Você tem filhos?

--Não.

--Pena! Mas ainda é jovem. Tenho duas, elas estão chegando aos doze e aos dez anos; sempre espertas, puxaram à mãe, são práticas, voluntariosas....E eu voando feito uma abelha perdida.

 

Veio-lhe à mente a imagem de uma abelha. Ele definitivamente não lembrava uma abelha; estava mais para um pequeno animal enervado e assustadiço do que para uma abelha. Não pode deixar de rir.

 

--Está rindo? Mas é verdade. Sou uma abelha que voa, voa. O tempo todo; há anos. Desconfio que eu vou ver minhas filhas crescendo à distância....

--Está sendo pessimista. Não creio.

--Mas olhe! A minha pequena até sonhou comigo outra noite.

 

“Ela disse que caminhava num campo cheio de lírios amarelos. Disse que seus pés tocavam o chão como se este fosse coberto de nuvens e à medida que andava, roçava nos lírios que se abriam;abelhas alvoroçadas voejavam atarefadas,ela sonhou assim mesmo e dizia que das várias abelhas sem rosto que viu subia um som, até que de um dos lírios brotei eu, sem sequer ter voltado meu rosto a ela, que se despediu de mim com um beijo”

 

O pequeno homem silenciou e ele respeitou o momento dele, voltando ao livro que o esperava impaciente, com suas colunas dóricas e suas paisagens fictícias. Não fora naquele dia mesmo que ele começara a aprender mais sobre si mesmo? Como faria para dominar aquelas palavras que desafiavam seu pensamento, usando as falas do escritor como escudo para defender suas ideias impossíveis?

 

“Noutro dia ela sonhou que estava envolta em luz. Que da barriga brotavam os sons de uma criança que nunca o fora, numa quimera do que pudesse ser, abandonada à sorte do que nunca seria. Ela o interpelou:

--Mas então? Que será de nossa via? Haverá então mais um sonho, onde eu poderia me gerar a mim mesma, rasgando a impermanência do que somos, para destilar a divina qualidade da fibra que antes nos unia?

--Não, querida, já não somos mais uníssonos, somos abismais e fantasmáticos. Temos a fímbria da aurora, que nos enleva a alma. Temos o ar dourado de prana e miríades de luzes que nos habitam sob a pele, como as contas de um rosário...”

 

--Eu às vezes penso em como seria se eu largasse tudo, para viver a minha vida.

--Conheço esta conversa...

--Você já fez isto?

--Isto o quê?

--Assim, dar um chute para o alto. Desprezar tudo, dar um tempo, se afogar na bebida, esquecer no ventre de outras o que não pode fazer em casa...

--Não, meu caro. Decidi fazer antes o que eu poderia ter feito há muito tempo.

--E então?

 

“Então carrego comigo o sonho; os papéis eu carrego no bolso, cheios de rascunhos de mim mesmo, os quais eu testarei um a um. Eliminarei aqueles que por tristonhos não desejo e serei para mim mesmo mais que a sombra do que eu já fui.”

 

--Parece frase de um livro!

--Estou escrevendo um; pretendo terminá-lo aonde vou pousar.

--Aonde vai pousar?

--Conheço umas pessoas em Belém. Chove muito lá, nesta época. No entanto, uma vez que estive lá, me encantei com as belezas da terra.

--Ah, namora uma moça lá!

--Não, separei-me recentemente.

--Sinto muito.

 

Desta vez, foi o homenzinho que respeitou o silêncio dele enquanto sorvia mais um gole do gin que dedilhava com gelo no copo.

 

“--Não sente falta de mim?

--Tanto quanto se pode sentir que se lhe arranquem um braço...Tanto quanto se pode sentir que lhe dilaceram o dorso, numa chaga que divindade alguma suportaria. Não tanto quanto se poderia suportar um raio vindo de algum recanto cósmico, numa chama instantânea e atroz a retorcer em segundos o que os séculos jamais moveram...

--Fica então! Fica. Terás então todo o mel de minha essência. Nada ofertarei às abelhas que adejarão sobre minhas pétalas. Todo o perfume tu o sorverás! Seremos então mais unos que a divindade; seremos então como duas metades completas de um fruto proibido e dourado. Seremos então como um pássaro primevo, a ressuscitar das chamas de seu próprio ventre...”

 

Novo solavanco. A bebida, antes tão comportada em seu copo, agora flutuava improvável entre as mãos do homúnculo e a camisa impecável que vestia. Uma espécie de bola líquida caiu, numa vertigem, banhando-o de gin e gelo e partículas luminosas que preenchiam o espaço que sobrava naquele momento improvável.

 

--Puta que o pariu!

--Molhou-se?

--Odeio essas máquinas.

 

As mãos se crisparam de novo, seus lábios finos emudeceram e tornou a tartamudear as orações inúteis quando soou o aviso dos cintos a serem atados. O serviço de bordo recolheu os copos e pratos às pressas, enquanto corria o carrinho entre as poltronas. Retomei meu livro. Olhei para o lado da janela que estava ocupado pela moça sorridente. Ela dormia a sono solto, leves movimentos imperceptíveis mostravam que ela sonhava, talvez com um menino à distância, talvez com uma fênix que renascia lá embaixo, talvez com as brumas que se adensavam à frente. Não, não dava para ler com tanta desarrumação. A criança chorou de novo, a mãe murmurou um “já passa”, um velho tossiu no escuro e eu desliguei a luz.

 

--Juro que se eu sair dessa, eu vou ficar mais com minhas filhas!