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Domingo
22Nov2009

O Sentido Da Busca

Pássaros voam na manhã clara. Os sons deliberadamente se alongam quando você acorda, sem senso de onde está ou do porquê de estar ali. Apenas existem, os sons exasperantes do passaredo, da água caindo nas folhas das árvores, gotas que se adensam da umidade e se espraiam nas copas que sombreiam a estrada, o caminho por onde você passou há horas atrás, para finalmente se estender e ver as estrelas que se afirmavam no frio céu distante, quando foi chegando o sono. Olhando de maneira firme, você podia divisar as Nuvens de Magalhães, as Três Marias, subindo lentamente, enquanto giravam a esferas da orbe que os antigos acreditavam ser de cristais sobrepostos que deslizavam entre si como num imenso maquinário, onde de um lado escorregava a lua, do outro o sol, mais além o firmamento mas sempre, e sempre, tudo girando em torno da Terra. O Antropocentrismo, o Geocentrismo, o sol gira em torno da terra, tudo gira em torno de nós, afinal, tudo é relativo. Ou não? Tudo afinal é relativo e quando decidi andar de novo, já os pássaros se escondiam dos finos raios de sol que expunham suas plumagens coloridas e seus bicos longos, como se pudessem ocultar sua própria beleza, sem alarido algum, sem peso nos galhos.

 

Não admira Icaro ter tido a ousadia de tentar voar, porém sem seguir os conselhos do pai prestimoso. Eu já prefiro o Caminho do Meio e é por onde sigo, com meu cajado, em meio às clareiras que surgem do nada e onde posso ver as folhas secas vindas do alto, vez em quando batidas pelos turbilhões de vento que anunciam algo de chuva, as folhas se erguem como que por mágica e a luminosidade se altera, filetes de luz penetram entre as folhagens e criam a ilusão de que há duas florestas, a de cima e a de baixo, que é onde caminho e procuro meu sentido. A de cima é reservada aos deuses alados.

 

Alguém poderia afinal perguntar, o que faz um homem andando numa floresta tendo dormido ao relento sob as esferas de cristal do mundo?  Por qual razão um homem pode estar assim tão distante de sua origem, procurando um sentido para sua vida no vento de uma chuva em meio à mata?Simplesmente não há sentido. Fui colocado aqui, dentro de um plano que talvez seja um plano mais do que o das próprias árvores, dos seres inanimados que habitam o solo (pedras, gravetos, minúsculos cristais, terra cheirando a chuva antiga) e maior do que os das orbes que giravam em perfeita equação até há certo tempo, até que um homem ( sempre um deles) provou que todavia se move. O plano, a esfera, Eppur se Muove, as folhas, as borboletas azuis que desfilam sua magnificência entre os arbustos, todavia tudo se move e eu com o cajado, busco o sentido que talvez não seja o meu, mas o de todos. Ah, pensar que Deus é um ser talvez de barbas brancas, pensar que ele possa estar bem ali, adiante da próxima clareira, bem ao alcance de meu cajado, sorrindo talvez à beira de uma fonte, onde saciarei minha sede; o eterno retorno da ilusão de que se pareceria conosco.

 

Então caminho e meus passos esmagam as folhas que caíram há séculos dos galhos do alto, sigo o caminho margeado por antigas pedras cheias de musgo, com marcas que denunciam a presença humana ancestral ali, talvez a de um outro viajante que se procurou a si mesmo sem se perder, num sentido mais vasto, mais perfeito. Talvez ele seja o autor dos rabiscos em alguns troncos com indicações que eu sigo sem temer porque sei que passou por ali alguém e mais outro e mais outro, como uma multidão de peregrinos perseguindo a verdade mais justa, o segredo mais oculto, o cristal mais luminoso. Esse talvez o sentido da busca, ouvir os estalidos da batida dos pés, ouvir o próprio coração pulsando no peito, seguir o rumorejar das águas.

 

Até que se chegue à própria fonte.

Segunda-feira
09Nov2009

Chá da Tarde

Ela contemplava o céu, nuvens poderosas na base e algodonosas ao alto; não seria desta vez ainda que a previsão acertaria.
--Por certo, hoje fez muito calor, não?
--Decerto.

Sua amiga de tempos imemoriais continuava repetindo suas palavras, como sempre o fizera. Obra-prima da boa educação, não soubera dizer não ao seu pai que a casara com um marido desalmado, nem a ele mesmo quando resolvera que o melhor negócio seria mudar para perto da verde selva, onde negócios prosperariam entre as tribos escondidas na mata e jazidas infindáveis fariam seus bolsos se encherem de dinheiro. Há males que vêm para o bem, pensara ela, pois ali mesmo ele morrera de impaludismo e fora ali que ela conhecera seu novo companheiro, felizmente.

Fazia tempo que se acostumara ao calor implacável que deixava a todos apalermados; todas as suas amigas que vinham do sul, quando e se é que vinham mesmo (ultimamente dera para duvidar se algumas de suas amigas já não a visitavam porque haviam morrido e outras que ainda se aventuravam por lá não seriam realmente espectros).

--Você sempre me repete. Parece um eco!
--Você sempre diz isto de mim. Sabe, querida?
--Sim?
--Hoje sua empregada acertou no sabor do chá.
--É uma espécie de maracujá. Delicioso, não?
--Vai me dar uma modorra...
--Dizem que acalma.

Pois sim que acalmava. Nas noites infernais, onde as nuvens se adensavam e chovia torrencialmente, a pele grudava-se no travesseiro e por mais que se abrissem as janelas, nada aplacava o calor. Nem mesmo o proverbial poder do maracujá a fazia dormir. Dava-se ao luxo, então, de recorrer ao poderoso calmante que seu falecido companheiro lhe trazia nas horas vagas ou lhe deixara escondido, ela não sabia direito se o que sonhava era real porque se mesclava de maneira tão perfeita à sua noite que ela de fato o sentia ao lado e se arrepiava e quando dava por si, estava lá a pílula que escondia seus mistérios.

--Por falar em acalmar...
--Conte-me tudo querida. Aqui, a esta altura da vida, nesta tarde acachapante, com este sol...
--...Ele me visitou de novo.
--Olhe, eu acho que você precisa é de ajuda.
--Mas...É tão real!
--Mas como? Ele já não morreu?
--Os dois já morreram. Ele gostava tanto de mim! Ao contrário do outro, que me surrava e dizia ao meu pai que eu caíra da escada, o sujeitinho. Bom, mas ele me trouxe para cá e foi aí que conheci meu visitante...
--Como diz meu amigo, a selva tem seus mistérios. Você o conheceu como mesmo?

Podia lembrar-se de todos os detalhes. Fora uma experiência única, inigualável, de textura infinita. Ela e seu atual marido andavam, assim como se anda na rua, sem o que fazer, ela olhando umas barracas que imitavam outras que ela havia visto no Ver-O-Peso, em Belém. Súbito, um reflexo lhe chamou a atenção, o sol se aquietara num cristal de um lustre que jamais combinaria com uma casa daquelas paragens e atrás do sol resguardado, o olhar zombeteiro dele, o olhar que a cativara pela ironia fina, como se pensasse como ela sobre o lustre e seus absurdos pingentes; quem haveria de colocar dentro de sua casa algo semelhante a uma fogueira de vidrilhos? Pois um homem de baixa estatura, com um bigodinho muito estranho, óculos de aro fino e raros cabelos amealhou o tal lustre. No entanto, o zombeteiro lá estava e ela, que a esta altura tinha seus trinta e cinco... Cabelos aloirados em cachos, uma bela mulher para os padrões da época, claro que percebeu que a zombaria era para o seu par, não para ela, muito menos para o baixote que saíra orgulhoso com sua aquisição. Na certa, ele deveria saber do fino trato que recebia de seu marido ardiloso e vil (ele era conhecido como mau negociante e pior caráter) e pensava o que faria tal mulher para estar, ainda, com semelhante tipo. Não que seu marido não fosse bonito: Tinha lá seus dotes, nos arroubos das noites ela tentava sentir alguma coisa, mas tudo que não passasse de alguns minutos, pronto, já estava virado e ela de olhos marejados, via o teto cair sobre sua cabeça. Nestas horas maldizia seu pai que a enrascara fazia quase dez anos e ela também se culpava pela prisão que a enrodilhava ano após ano. Talvez daí a sedução daquele olhar a tenha cativado. Daí, para conversarem, foi um passo e o fizeram sob as barbas de seu marido, entretido com negociantes (ele sempre fazia isto, como que para irritá-la, metia-se a falar de preços da borracha, do cacau, das carnes de novilhos e boi zebu... Era aviltante e ai dela se reclamasse, cairia tantas vezes da escada quantos degraus ela tinha.)

--Era bonito?
--Não mais que meu marido. Mas tinha algo que ninguém tinha...
--Tinha o ar do mistério da selva.
--Talvez. Tinha um quê de índio, mesmo. Um cabelo bem escuro e a pele mais amorenada. Talvez tivesse mesmo algo a ver com os índios, não aqueles que viviam e vivem perto da civilização, mas algo mais nobre. Tinha sempre de sair da cidade, para se embrenhar em grotões que nunca eu ouvira falar. Na realidade, eu nunca soube o que ele realmente fazia. Às vezes, vinha com flores que nunca cresceriam em parte alguma senão no meio da floresta; então criamos um canto que você conhece...
--Claro, querida.
--E lá brotavam aquelas plantas esquisitas, com flores que davam tonturas de tão perfumadas, outras com flores que pareciam, bem, você sabe o quê.
--O tal mistério da selva.

Ela gostava de sua amiga, esta que sempre dizia que ela repetia suas palavras, mas não, ela é que era a ouvinte porque escutava tudo o que ela narrava com tal delícia que dir-se-ia espelhar-se nela para viver uma outra vida que não houvera para ela. Bem, ela a achava divertida, a ironia pareava às vezes com a de seu estranho visitante, isso enquanto ela falava sem parar nas investidas que ele dava e a enlouqueciam...

--... O tal mistério da selva.

Riam as duas, viviam uma da memória da outra, uma mais que a outra e outra por demais de uma. Contemplavam o céu azul, as poderosas nuvens já serrilhando o céu com faíscas ao longe, iluminando o tênue horizonte que se manchava das luzes da cidade e elas se lembravam das festas que haviam freqüentado juntas, obviamente sabedoras dos segredos mais constrangedores dos convidados mais do que os seus próprios. Pelo menos antes destas festas, ela não caíra da escada, riam-se as duas à beça. Mas olhe, quem está ali, ao canto, com uma taça de vinho na mão de tez indefinida?

--É ele!...
--Quem?

E ela olhava de novo e ele não estava lá, talvez se disfarçasse para não fazê-la passar vergonha com o marido a tiracolo. Ela disfarçadamente tentava vê-lo, via uma mão com uma taça de vinho, ele conversava animadamente com outras mulheres, só para espezinhá-la, certamente não estaria falando sobre negócios e sim sobre as belas e poderosas árvores que abrigavam as exóticas tribos, pois sim, iriam acertar as contas noutra hora, em outro dia.Ah sim, ela haveria de querer saber quem elas eram e se ele se interessara, não sem antes ter de sorris amarelo para o marido sisudo, animado com seu jornal à mesa, dando tempo ao tempo para poder voar ao seu ninho de plantas e humores secretos.

--Ele estava bem ali!
--Estou começando a achar que este seu misterioso...
--Amigo.
--Sim, estou começando a achar que ele não passa de pura e simples diversão de sua mente.
--Não duvide nunca de minha sanidade!
--De forma alguma, você sabe que eu jamais faria isso!

Então assim que seu marido saía ela dava um jeito de sair de casa, sem despertar as suspeitas de seus empregados. Ia sempre a instituições de caridade, quando na verdade...

--Quem eram aquelas?
--E você se importa? Afinal, tem marido!
--Pare de me provocar!
--Bem, não era eu que estava com uma moça a tiracolo.
--Nunca gostei dele!
--Porque não fica comigo?
--Seria um escândalo!

Escândalo é o que faziam depois de discutirem, os humores misturados ao perfume de seus corpos suados de amor, desejo, calor e cansaço. Para ela estava bom assim, para ele que fugia sempre para a selva, melhor—não precisava se prender a ninguém e nenhum dos dois se cobrava isto.

--Sempre que precisar dormir, mas assim, dormir como num passe de mágica, tome um destes, quando se lembrar de mim e não conseguir dormir, pegue e tome.
--O que é isto?
--Um pajé de uma tribo muito afastada fez e deu a mim. Diz que vem de uma planta mágica. Antes de dormir, você vê a magia do mundo se abrir ao seu olhar. Porém, preste atenção ao que a magia lhe diz, pois é dos sonhos que se faz a realidade; pode-se aproveitar quem sabe uma parte deles para se moldar o mundo.
--Onde aprendeu tudo isto?
--Minhas viagens solitárias pela selva me ensinam tudo. Gosto do silêncio imponente, das enormes árvores antigas; gosto de meus amigos que disparam suas flechas sibilantes para me avisarem que ali é seu domínio. Gosto das águas nos riachos, elas me ensinam sobre a paciência de seguir seu curso até onde nascem. Talvez daí nasça minha sabedoria, nas nascentes dos riachos que dão mais trabalho para serem achadas. É nelas que busco minha inspiração, é delas que trago as flores mais raras para nosso abrigo momentâneo.

Ela se lembrava de tudo isso, ali, com sua amiga inseparável, enquanto bebiam o chá improvável de uma fruta rara colhida por sabe-se lá quem, enquanto as nuvens despejavam em grandes faixas cinza sua fúria em águas marcadas de hora para derramar, como um relógio dos mais exatos, tanto que os mais cuidadosos sempre recolhiam suas barracas, sabedores do horário certo da monção. Não é interessante, saber a hora pela hora das águas?

--Certamente, querida.

E ao final de um dia de muitas conversas, era chegada a hora dela partir. Não sabia se ela partiria para mais uma vez, naquela semana, deixar o conforto de sua casa arejada para colocar a conversa em dia com sua amiga. Naquele dia, tal era o calor que ela, certamente, faria uso da tal pílula, guardada a sete chaves em sua cabeceira, numa caixinha ornada de pequenos cristais de duas cores, onde brilhavam as pílulas verdes que ela conhecia. Pegava então o copo de água, tomava uma delas (fazia muito tempo que não a tomava) e esperava, porque a magia certamente moldaria seu mundo. Sabia, então, que não estava só, porque ele suavemente, sub-repticiamente, penetrava em sua solidão e de onde quer que estivesse falando, seja de qual árvore colhesse qual fruto ou flor, primeiro ela ouvia os sibilos das flechas e então escutava o rumorejar das nascentes que certamente ele escolhera para lhe fazer companhia o dia que ela quisesse.

Domingo
25Out2009

Água que Passarinho Nenhum Bebe

O pequeno barco, alugado a preço módico, progredia lentamente nas águas calmas do tépido mar que mais parecia uma lagoa. Eu decidira pescar de novo e só aquele marujo velho conhecido do cais é que tinha os melhores anzóis e as melhores informações de onde estavam os cardumes. Eu viera com meu amigo, camarada de muitos anos e beberrão que nem ele só. Para se ter uma idéia, já virara uma garrafa de gin com tônica, que era sua bebida predileta. O horizonte compunha um poema rosado, feito de nuvens afiladas, de formas diversas e raras franjeadas pelo sol que do outro lado do mundo já dava suas caras, mesmo àquela hora da manhã.

--O Rei já vem raiando, melhor nos apressarmos para pegar os maiores do cardume.

--Mas como assim?

--É que os maiores gostam de comer os menores e a esta altura, já devem estar se preparando para vir à superfície. Daí, se tornam mais fáceis de se pescar.

Ele dizia isto com a tranqüilidade de quem conhece o que fala, calejado pelas intempéries, mãos grossas de tanta corda e tanto timão. O barco cheirava a peixe, talvez as iscas, talvez o sabor do mar que batia no casco e levantava uma névoa branca que às vezes parecia um spray gelado. Àquela hora da manhã, era como uma ducha.

--Caramba, a última coisa que eu queria agora era tomar um banho de água salgada! Com mil rabos de peixe!

--Não reclame, pelo menos você acorda e quem sabe pára de beber tanto. E veja se não vai vomitar aqui!

--Já me viu vomitando?

--Mais de uma vez.

--Pois não vai me ver de novo.

E tentava encaixar a boca da garrafa em seus lábios grossos, mas o balançar do barco que agora andava em maior velocidade o impedia de engolir a bebida que agora era uma garrafa de uísque.

--Como você resiste a isto?

--Não sei, sei que quando estou no mar preciso disto para me convencer de que estou vivo!

--Mas você está vivo!

--Eu acho. Você, camarada, o que acha?

--Eu acho que lá na frente ( apontando com o queixo de barba rala por fazer alguma região escura no mar logo adiante) vamos encontrar um dos grandes.

Meu amigo tentou firmar a vista o que obviamente se tornara impossível, dadas as circunstâncias. Eu de minha parte comecei a preparar as iscas e comecei a colocar nos anzóis que o barqueiro havia arranjado. Juán era seu nome, pele ressequida, moradia humilde, de pouco falar mas excelente pessoa.

--Assim está bom, Juán?

--Tem de por mais para dentro. Do jeito que está, de uma bocada só vai tudo por água abaixo!

--Rá rá rá. Tem bom senso de humor nosso guia! Pois sim, vai mesmo, tudo por água abaixo ( e fez menção de vomitar ).

--Por favor, aqui não. Se quiser, vá ao banheiro. Não me venha empestear o barco agora, aqui, mar profundo! Fora que os peixes certamente vão fugir esbaforidos com seus ruídos horrorosos!

O barqueiro Juán diminuiu a velocidade. Aproximava-se com cautela de uma espécie de mancha azulada, dir-se-ia uma cor que mudava, como se fora uma bandeira ou talvez um jato de tinta azul-escuro que se dissolvesse e logo se agrupasse do outro lado. Ele desligou o motor e eu preparei as varas, já com as iscas devidamente colocadas. Meu amigo parou de beber e de maneira frenética, passou a preparar as suas varas; três eram minhas, duas eram dele. Eram de sua estimação, segundo ele elas lhe davam sorte de modo que não quis pegar as varas oferecidas por Juán que com um sorriso maroto deu a entender que daquelas varas ele não esperava muito. Uma delas tinha um cabo de madrepérola, extremamente bela e meu amigo dizia que fora com aquela que ele conseguira pescar um peixe enorme num rio do Pantanal. Bom, guardadas as devidas proporções, ali não era um pântano, mas ele se preocupou de colocar mais linha na carretilha e sorrindo mais do que o costume, agora jogara a isca bem ao longe, um zumbido que cortou os ares da silenciosa manhã em mar aberto.

--Agora é que vamos ver quem tem a melhor vara aqui, ou quem pesca melhor.

Juán deu um sorriso olhando de soslaio o meu amigo beberrão. Ele também olhou de esguelha e fez sinal com a cabeça que era para ele olhar em frente; meu amigo era meio complicado quando bebia demais, sempre arranjava confusão. Juán não se deu por vencido, sustentou o olhar, mas os três de repente pararam para ver o espetáculo, gaivotas mergulhando direto no mar para tentarem abocanhar uma ou outra presa. Sinal de que realmente ali se escondia um tesouro. O barqueiro desligou o motor e mergulhou a âncora, de modo que ao silêncio do motor se sobrepunha agora o canto das gaivotas e o pequeno marulhar da água no casco do barco. O barqueiro sumiu para dentro, talvez para dar um tempo a meu amigo ou para se aliviar. O sol surgia no horizonte agora e tingia a proa do barco de vermelho. Olhei para o lado da terra, era uma pequena mancha branca bem longe de onde estávamos, afinal haviam sido uma três horas de lenta viagem até ali.

--Sabe? Se eu morresse hoje, não me importaria, só de ver o que estamos vendo agora já valeria a viagem.

--Não brinque com isto. Estamos em mar aberto e o mar pode mudar de repente.

--Mas eu juro que voltaria para puxar as cobertas de Neide. Nossa, que mulher assanhada. Foi um dinheiro bem gasto.

--Você me falou que havia sido, mas nunca imaginei que fosse tanto!

--É uma destas morenas que...

O puxão foi tão forte que quase arrancou a vara de sua mão; não é que tinha sorte meu amigo? Justo para ele era a primeira fisgada. Sustentou a puxada e gritava feito louco, enquanto puxava a linha na carretilha velha de guerra. Arqueava-se a vara, quase quebrando. Peixe do mar é mais forte, pensava eu, do que peixe de pântano. Nem um nem outro se rendia, ele dava uma folga, puxava um pouco, lá vinha outra puxada, o peixe havia sido fisgado. Juán dera as caras na popa e admirado observava meu amigo em sua luta contra o peixe que se avizinhava e pela vista era uma garoupa de seus trinta quilos.

--Mas Neide é uma dessas morenas que deixa um homem aflito com aquelas ancas; difícil é pescar uma destas. Sabe-se lá!

--Vai perder o peixe falando assim.

--Pesco melhor bêbado. Você sabe disto.

--Estou vendo! Na minha vara, nem uma fisgada; na sua, já tem um destes grandões!

--E não é que é mesmo, seu moço? Olha lá, o bichão está se cansando.

--É isso mesmo, barqueiro. Essas varas têm história, têm presença; são de meu pai e sempre me ajudaram a pegar estes bichos maravilhosos. Hoje vamos ter peixe para jantar!

Pegou a garrafa e deu um gole enorme. Pelo visto, já estava ficando sóbrio.  Subitamente, morderam minha isca e eu comecei a dar vigorosas puxadas e ao olhar para cima, vi o céu salpicado de nuvens róseas.

--Amanhã não saio não. O tempo vira depressa aqui, amanhã vou limpar o barco.

--Por quê, Juán?

--Aquelas nuvens ali, são nuvens que trazem ar frio. O ar frio traz a tempestade, com certeza. Dia de ficar assim parado, esperando a borrasca passar ou a vendo ir ao largo. Não arrisco não; tem gente que gosta de enfrentar, eu conheço este mar daqui, são vagalhões que engolem barcos facilmente.

--Não agoura não, barqueiro! Não agoura que este aqui (e puxava a vara com a certeza da vitória) vai parar na mesa de nossa sala lá na cidade. Você está convidado, você merece.

A tensão entre os dois amainara e o barqueiro pitava um cachimbo agora, enchendo o ar com um cheiro espesso, talvez de um fumo de baixa qualidade. Ele olhava o horizonte, vigiando os sinais e nossas varas. Ao tentar puxar o fio com a mão, numa sacudidela violenta o peixe puxou rapidamente e cortou parte dela.

--Filho da puta! Quer me arrancar as mãos, é?

Ele deu um solavanco e o peixe voltou a responder. A luta ainda iria durar um tempo regada a uísque, palavrões, fumo de cachimbo e cantos de gaivotas que mergulhavam sem cessar no cardume. Uma ou outra saía do mar com o bico ornado de prata, o peixe ainda se debatendo ao fugir do alcance de seus semelhantes. Era a lei da vida, muitos se salvavam, alguns eram sacrificados e dois dos maiores eram puxados para o barco. Vimos ao longe alguns golfinhos que também faziam seu festim, cercando partes do cardume e caçando peixes um pouco maiores.

--Que espetáculo, essa vou guardar em minha memória.

Juán satisfeito dava seus palpites, afinal ele era o barqueiro, era ele que ia receber os peixes. Preparou um arpão para que quando chegassem perto, fosse dado o golpe de misericórdia e assim foi, quando a garoupa de meu amigo foi içada a bordo.

--Deve pesar seus quarenta quilos!

--Parabéns, camarada. A minha você vê, é bem menor.

--Você devia era beber como eu. Aí pegava peixe grande!

As gaivotas andavam perto, bem perto, como se soubessem que podia sobrar alguma coisa para elas e tinham razão; Juán limpava os peixes com maestria, jogando as sobras nas águas e o bater de asas se tornava absurdo e alto, uma algaravia de trinados e ritmos embaralhados em asas luminosas e olhos astutos. Não escapava nada, o mar nem via os restos e o cardume se afastava. Talvez o cheiro de sangue dos companheiros, talvez o barulho das aves ou o motor que era ligado os impressionasse, o fato é que os peixes devidamente limpos, já colocados no gelo com sal nos faziam rir à beça. Decidi aceitar uns goles e fiquei alegre com as piadas de meu amigo de longa data e das descrições minuciosas que fazia das amigas que conquistara ao longo da costa, alguns anos atrás, quando largara tudo para se tornar um boêmio errante.

--O negócio é o seguinte, já levei a vida muito a sério; nesta altura, meu melhor amigo é você e eu me dou muito bem comigo mesmo. Bebo sim, mas não vá me dizer que já me viu caído em alguma esquina, de borco, sendo lambido por cachorros.

--Não, de jeito nenhum.

--Devia aprender a beber mais. Dignifica o homem!

Beber dignifica o homem. Desta, até Juán sorriu, e empertigado, olhou para trás para dar uma última mirada no cardume que se afastara. Notou as nuvens que se formavam no céu. Naquele andor, na calmaria que se formava, ele calculou que pela manhã o tempo havia de virar. Ele preferia ficar em casa, quiçá costurando as redes, talvez passando piche no casco ( sempre havia um vazamento) porque conhecia mais de uma história de companheiros seus que haviam sumido no breu sem nunca mais terem sido encontrados, tudo porque desafiaram a força dos ventos por uma boa pescaria. Ele que não era bobo, se já vivera até ali, haveria de viver mais um pouco se soubesse evitar as armadilhas que carrega o mar profundo que ele respeitava como fosse um sombrio senhor, prenhe de alimento e de barcos sem donos.

Beber dignifica o homem! Essa ele contaria em casa, dizendo aos seus filhos que haveriam de perguntar:

--Mas, pai, beber o quê?

--Da água que passarinho não bebe!

 
Domingo
04Out2009

Humanidade

Não querida, eu não tenho o poder de ser mais do que sou, apenas sou humano. Minhas limitações são as mesmas que as suas. Também tenho pele, olhos que brilham, capto todos os seus cheiros. Não entende? Eu procuro me adaptar ao seu ciclo, ao seu tempo. Tempo, mais do que a própria palavra, tempo tem uma densidade que nos relativiza e nos põe de cara com o infinito e com a finitude, a nossa, a sua, a deles.

A finitude de todos.

Tenho minhas alegrias, tenho meus motivos para deixar de dormir, seguir vivendo todos os meus exageros, minhas neuroses, meu tamanho, meus desesperos. Sonhar é desafiar os próprios destemperos e repentinamente despertar noutra esfera, noutro sonho dentro de um mesmo. Também tenho meu próprio degredo, meu tempo consolidado, minhas próprias feras descompassadas. Tenho comigo meus segredos que nem mesmo eu sei, para onde vão (há sempre um lado obscuro que nos oprime, há sempre um lado de nossa alma que tememos, não há?), mas eu contabilizo mais meus lados positivos do que meus momentos negativos.

O que afinal nos move querida? São nossos sonhos, é a relação com a realidade que tolhe nossos principais talentos obrigando-nos a trabalhar nossas diferenças com ela ou são as projeções de nosso tempo interior no que nos molda como seres relacionais e racionais? Ficou difícil? Pergunto, o que nos move afinal? Desde que nascemos, o que nos move é nosso ar e, no entanto, nessa abóbada azulada em que respiramos, diferentes são as aspirações, os anseios e díspares são as inspirações, diferentes os motivos de cada um que se agita em seu pequeno mundo, com sua corja de incertezas e individualidades.

Estamos sozinhos; a minha dúvida é se moldamos nossa grande amiga ou se é ela que nos define. A solidão. Penso que estamos estanques, aquela sensação de fusão com a multidão nunca me tocou, penso que cada um dos que anda numa praça carrega sua alegoria do que é seu mundo, do que são os seus desejos mais profundos.

No entanto, quando estou com você, abrem-se os poros de minha alma, sorvo o sonho de tua aura toda, que inebria o ambiente que a cerca. Simples assim. Quando estou com você, nada assoma à lagoa, não brilham os olhos da escuridão; inebria-me o seu perfume. Deixo a minha pele, a segunda que carrego, fora da porta de casa, pendurada num porta-chapéu antigo, como se fora um boné e lhe apresento a minha verdadeira face e lhe ofereço a outra.

 
Domingo
27Set2009

Ela sempre volta

Na calada da noite, eu atiro a guimba do cigarro ao mar que em suaves movimentos recusa mais um pedaço de lixo da humanidade, como as garrafas que enchem o cais e bóiam desobedientes ao vento e ao léu. Só olho para o céu e está claro, quase sem nuvens. Posso ver além que luzes delineiam um horizonte flutuante e fugidio, talvez os barcos de pesca que animavam minha infância doce e curta, talvez as marcações para que os grandes navios não encalhem no estreito canal que leva ao porto. Os barcos têm de ser guiados pelos rebocadores que os levam ao ancoradouro e muitos permanecem na fila, esperando o momento de atracarem ou de desembarcar suas cargas que enchem de containeres as ruas de todo o bairro que cerca os arredores. Lá vivem os antigos pescadores em casas que definham, os marujos que suados voltam de grandes viagens no sumidouro do mundo; vive uma fauna de mulheres de tipos exóticos sempre perfumadas esperando seus antigos donos e novos clientes. Vive uma corja que se esconde e sai à noite enquanto eu miro o espelho flutuante que é este mar a refletir o meu rosto e as luzes de várias cores do barco iluminado que chegou com turistas europeus. Posso ouvir a algaravia, os pequenos excitados com a possibilidade de descerem à terra depois de dias de prisão forçada no navio de cruzeiro e as mocinhas empenhadas em mostrarem predicados aos nossos famosos machos latinos, os velhos esperançosos de reencontrarem os antigos parentes perdidos.

Passa o jorro do farol, a cena toda iluminada pelo lampejo azul da lâmpada renovada, uma espécie de flash que fixa em minha retina a sombra do grande barco e o nome, pintado em garrafais letras no casco, Andrea Del Mare. Nome de mulher? Homem? Conheço Andréias, Andreas. A última que conheci foi bem aqui, onde meus pés teimam em permanecer grudados como se uma espécie de cola os fixasse ali ou como se um amálgama de águas vivas os prendesse em suas cintilantes fosforescências (mais uma lembrança da infância, as redes iluminadas pelas águas-vivas, os polvos e lulas e os peixes que iam direto para a mesa dos felizardos que vinham enroscados com as grossas cordas do arrastão, os gritos roucos do dono da armadilha imensa que pegava toda uma praia); É o bastante para eu acender outro cigarro, enchendo o peito da acre fumaça e sentindo a nicotina que amarela minhas unhas penetrar pelos vasos, pela rede de alvéolos e pelos lábios duros de tanto esperar.

Onze da noite.

De onde vem tanta gente? Como eles povoam este mundo onde se perdeu minha Andréia? Como ela estará depois de tantas promessas não cumpridas? Como navegará agora minha amada que se foi assim, de supetão, quando lhe deu na telha? Sorvo a fumaça que azul se confunde com o arroxeado do céu e se mistura aos miasmas do ar pesado e quase fosco das paragens do atracadouro, um cheiro meio que de mijo, meio que de suor, talvez de um galpão abandonado. Um lugar cheio de ratos e vida, água podre e golfinhos que teimam em pedir comida a nós, os reis da terra firme. Nós, estreitos e sós, que ousamos acreditar nos cantos de tantas sereias, nos iludimos tanto com tantas Andréias Del Mare.

Onze da noite e tudo não passa de um momento, de um segundo, como o flash do farol que volta a iluminar os cantos do mundo com seu clarão de segurança. O suave barulho das águas a baterem chegando em ondas vindas não se sabe de onde, talvez tenham bordejado a África, quiçá passando por Canários, Cabo Verde e Açores ou o próprio estreito de Gibraltar e venham grudadas ao casco cheio de conchas e parasitas que os turistas não vêem porque mergulhado no fundo; isto ninguém vê, a vida brota nos meandros mais escuros e estreitos, nas quilhas mais improváveis pula um lindo Delfim, mas este é um peixe das profundas águas que só os pescadores pacientes sabem pescar, não os amadores com suas pequenas varas que teimam em enrolar-se umas às outras na beirada da praia.

Suspiro e sorvo o ar da madrugada que se insinua, são onze da noite, o farol passa de novo seu arrastão e colhe os olhares esgazeados das damas noturnas, dos cansados marujos, das velhinhas que descem as escadas rumo à terra firme, amparadas pelos netos que gritam infames piadas e pelos carregadores de malas—não sei quantas descem ou para que sirvam.

Gosto de imaginar o que farão em terra, quais hotéis encherão, quantos dormirão em tantos quartos; gosto de ver as moças passando carregando impossíveis sombrinhas (faz muito sol nestes trópicos) e seus namoradinhos recém-adquiridos na viagem e que logo se diluirão pelas praias ou ruas da cidade que eu vejo daqui, os jardins iluminados a perder de vista; quantos se esconderão entre as árvores para roubarem beijos à amada como eu fiz com minha dama? Quantos durarão mais do que um verão ou sucumbirão às mais doces tentações que existem de diversas formas e alturas esperando qual caranguejos nas suas tocas e guarda-sóis?

Onze da noite e tudo não passa de um clarão, um arrastar de nuvens cheias de águas vivas; a vida não passa de um lampejo qual um farol que teimamos em seguir e que guia nossos destinos até o fim, até o final de nossos tempos que não obedece ao tempo marcado e sim a um Tempo mais que perfeito, no batimento descompassado de nossos corações ao ver os olhos da menina, no suave despertar dos sentidos pelo beijo que se segue infinito e depois, com um clarão, nos faz voltar ao frio ar que se espraia trazendo as brisas marinhas às minhas narinas, junto com os últimos farrapos da orquestra que ainda toca a bordo do grande barco.

Eu gostaria de estar lá dentro, talvez a achar a minha querida enrodilhada com um capitão qualquer, bêbada de alegria; talvez amasiada com um estrangeiro de olhos distantes a lhe prometer mundos e fundos, iludindo e confundindo a cabeça cheia de cachos que pousou um dia em meus ombros. Ah, sim, isso mesmo: Cachos aloirados. Eu queria ouvir os acordes da canção e voltar os olhos para ela e ela perceber num instante, num lampejo de um flash de alguma máquina fotográfica—ou seria o farol distante a sinalizar o Tempo certo—que eu não merecia estar aqui à beira, os lábios ressequidos, as mãos vazias, esperando que ela voltasse assim, meio de surpresa, meio que pedindo desculpas.

Aí eu dançaria com ela como estou dançando sozinho na beira do porto, cigarro na boca, a guimba quase queimando o filtro, uma valsa inconseqüente e linda e os olhos dela brilhariam e diriam:

--Eu te amo.

Beberíamos champanhe, vodca, comeríamos a lula que ela adorava; esparramaríamos nossa louça no quarto, misturaríamos nossos corpos aos sons dos motores do navio que nos levaria de volta ao Estreito, desembarcaríamos em Madagascar e gozaríamos feito loucos.

Gosto de pensar no que seria se não fosse sua doce ausência, se eu não fumasse tanto, se a água não fosse tão viscosa e se eu tivesse mais rumo no mundo.

Desce uma moça vistosa desacompanhada. Posso ver os seus cabelos, posso adivinhar seu olhar; é o local que sempre combinamos.

Gosto de pensar assim.

Ela sempre volta no fim.