Um Caso Estranho
Quinta-feira, Janeiro 26, 2012 at 06:05PM Lá fora, uma paisagem condizente com a situação: Árvores cheias de folhas caindo, ventos varrendo as ruas, pessoas com guarda-chuvas cinzentos, como que aprisionadas num sonho. De pé, encostado a um tronco de Pau-Brasil(ainda com flores amarelas em agonia), um velho fumava ritmadamente, maquinalmente, como se ao olhar à distância, algo em si se ligasse e ele relembrasse, a todo instante, que deveria estar ali, naquele momento, onde as ambulâncias passavam expressas e de sirenes desligadas mas velozes, quase sumindo de tão rápidas. Um casal passava de braços dados: Ele, alquebrado(evidentemente envelhecido, algo nos dava a impressão de que era absorvido de dentro para fora) e ela, carinhosa, o amparava em trêmula marcha. Iam ao encontro do metrô, a pouca distância de onde eu me encontrava. Passou um vendedor de bilhetes de loteria, dessas que prometem mundos e fundos, mas que nunca se ganham. Ia o vendedor, guimba de cigarro pendurado ao lábio, como uma pequena cauda de rato; Eu nem o fitei porque, sem dúvida, achando que lhe daria a atenção, viria ele com a fauna toda a me prometer "a última barbada", o número da transformação! Pois sim! De números não os quero mais perto de mim. Os números servem para nos acorrentar, somos números ao nascer, tornamo-nos números e somente números nas estatísticas oficiais, temos alguns deles a nos perseguir até ao último suspiro...Que o diga eu, à procura de um número, um sinal de que talvez ela ainda existisse, a minha linda amiga, se é que se pode chamá-la assim, depois de tudo o que aconteceu.
Eu tenho um pepel à mão, um papel que traz um número, uma ocorr~encia que eu registrei agora há pouco; lá, onde fiz o tal nefando documento, orientaram-me a vir aqui, neste lugar frio, onde cheira álcool, formol, fumaça de cigarro e pestilência humana. Sim, o lugar chega a ser pestilento. Alguém me disse que as paredes guardam nossos mais íntimos pensamentos, num registro não-gráfico de todo e qualquer ato ou ação que se possa fazer. Imagino o que aquelas paredes, naquele ambiente escuro, mal iluminado, têm a contar. Há duas pessoas ali, além de um funcionário que conseguiu conquistar a tão desejada invisibilidade, pois que só o percebo quando ele passa um pano cheio de furos roçando os bicos de meu sapato recém-engraxado por um simpático moço que me cobrou dez reais por nada. Dei-lhe vinte, ele saiu todo prosa, bem ali perto, onde a Pamplona faz esquina com esta rua onde me encontro e da qual não prefiro dar o nome. Ouço uma espécie de protinhola se abrindo. Entra um rapaz mais do que sonolento(eu diria estar sob efeito de algum entorpecente, tão vermelhos e injetados os olhos).
--Boa tarde.
--Boa tarde!
O outro fica de cabeça baixa, parece estar muito triste com tudo aquilo.
--O senhor quer...?
--Instruíram-me que viesse aqui, para dar seguimento a uma ocorrência...
--...Ah, o desaparecimento.
O outro meio que ergueu os olhos, abatido, mas ficou interessado, como se aquilo o avivasse, na grande distância que nos separava.
--Por favor, acompanhe-me.
Senti um arrepio. Era a hora da verdade. Havia um corpo a reconhecer, havia uma razoável chance de ser o dela, o seu corpo, o corpo de uma maravilhosa criatura, uma linda mulher; agora, reduzido a um grito de silêncio, ao frio de uma peça de metal, ao contato de um lençol nojento, em meio a um caos de facas, instrumentos cortantes, balanças, outros lençóis e geladeiras até o teo. Confesso que me senti nauseado. nunca havia feito isto! Acompanhei o rapaz que se movia ali como se estivesse deslizando(talvez mais um fantasmático, como eu achava todos ali). Chegamos ao local do fim de tudo. Ele, brusco, intempestivo, arrancou o lençol!
--É ela?
--Não. Por Deus, não é!
--Confirma isto?
--Sim.
Um misto de repugnância e alegria absurda me invadiram, eu não cabia em mim de contentamento. como poderia esquecer a linda deusa? Ainda podia estar entre nós. Não segurei mais, vomitei copiosamente o almoço.
--Fique calmo. Muitos sentem isto aqui!
Saí da sala e voltei à estaca zero.Quando ele me chamou para finalizar o processo todo, afirmando oficialmente que aquela que se encontrava lá não era quem eu procurava, o rapaz que estava próximo ouviu seu nome.
--Como é o nome da moça?
Eu disse seu nome. Ele ficou estupefato. Perguntou detalhes dela, seus cabelos, seus olhos. Sabia o seu perfume! Sabia das jóias e em que dedos as usava. Lembrou do colar que eu lhe dera, uma jóia de cristal.Ouro e cristal, que ela sempre usava entre os seiso, às vezes só o clora ornando aquele corpo escultural. Eu fiquei chocado de início, irado ao ouvir sua descrição, mas a calma de saber que ela continuava viva de alguma forma me fêz ouvir o que ele tinha a dizer. Ele também a procurava, pois que ela sumira sem deixar vestígios, deixando mala, roupas em sua casa. Malas? Eu achava que ela gostava era de mim. Ele, bem mais alto que eu, bem apessoado, era o tipo de homem que bem admiram as pequenas, que no fundo sempre fantasiam um homem forte e capaz. Eu sublimei minha inferioridade ao perceber que ele não passava de um coitado, manipulad por aquela mulher que também me manipulara, com incontáveis mentiras indefensáveis. Ele marcara com ela há dois dias no parque das flores, ela nunca apareceu, não telefonou, não deixou vestígio. Como havia feito comigo! Ele chorava copiosamente e eu lhe disse, calma, ela não morreu, aceita um café? Ele fêz que sim, não comia nada há dois dias, de tão triste que estava--e porque ela o ajudava em sua difícil vida. Eu caminhei com ele na rua, saímos ao vento, fustigados pelas folhas que caíam. Os troncos das árvores rangiam ameaçadores, ele soluçava fundo, comovente. Eu, mais acostumado aos altos e baixos dela, ao sentar-me, senti uma paz profunda. Ele se sentou de lado, a cadeira rangeu(era forte o moço) e eu pedi dois cafés fortes e pão com manteiga. Ele aceitou, come ávido o que lhe era devido, bebeu o café lentamente, olhando a triste rua, com seus ventos e roupas soltas, as moças que passavam e que lhe traziam alguma esperança.
--Como a conheceu?
--E você, a conhecia?
--Sim, digamos que sim, era seu amigo.
--Ela iria se casar comigo. Prometeu, fizemos um trato de sangue, ela cortou um dedo e me prometeu!
Ele me contou, trabalhava num mercado, era desendente de italianos e há pouco viera clandestino ao Brasil Ela sempre comprava suas coisas no mercado em que trabalhava. Ele se conheceram assim ele lhe apresentando as frutas e ela lhe oferecendo o famoso sorriso, que ele bem conhecia. Em duas semanas já dormiam juntos, ela era insaciável ( e eu me remoendo por dentro, porque era assim comigo e com quantos mais?) e em sua paixão, lhe prometera casamento. Chegaram a alugar um apartamento, simples, mas para os dois bastava, assim ela lhe dissera, e lá deixara as malas, para nunca mais aparecer...!
--Entende? Eu não posso acreditar mais no que ela fêz!
--E eu? Posso acreditar? Ela sempre me disse muitas coisa, até mais coisas do que o que disse a você. E, no entanto...Eis-nos aqui, procurando um corpo que, oxalá seja verdade, não existe, pelo menos até agora.
--Prefiro o seu corpo animado a aquelas estátuas de cera.
Um esboço de sorriso apareceu. Eu olhei em torno, havia velhos clientes estabelecidos, gente que se desocupa demais da vida, pessoas que se moviam no espaço de suas mediocridades, pasmos, incrédulos com seu destino. Eu já notara o insistente olhar de uma jovem, sozinha num canto, esperando que eu a olhasse de vez...
--...Também prefiro que esteja viva.
--Veja, ela me ligou, há dois dias, para me declarar que me amava!
--Há dois dias, ela também me ligou e disse que queria conversar comigo, para definir nossa vida a dois.
--Louca.
--Total. Ainda acha que ela nos merece?
Ambos, em silêncio, olhávamos a toalha xadrez, de tipo português, que estava muito bem arrumada sobre nossa mesa, com seu saleiro, seu paliteiro, o porta guardanapos e o azeite, que passei no prato para comer meu pão. O dono levantou os olhos quando lhe pedi um copo com vinho. Vinho, pão, estranha missa a nossa, bebendo do sangue dela, sentindo o seu corpo em pedaços, fruindo seu perfume comum a nós dois e ambos de coração partido.
--Somos ridículos.
--Como?
--Não acha? Você, iludido por um sonho, eu enganado por uma promessa. Ela desaparecida para ambos, sem sinal para o mundo, sem nunca nos contactar.
--Sinhioire?
Era o dono do bar, trazendo o vinho.
--Mandaram-me entregar a vocês.
Sobre a mesa, um envelope. Quem o entregou? Ah, foi ela, ali--E já não havia ninguém na mesa onde havia a jovem. Eu e meu colega de infortúnio olhamos ao mesmo tempo. Engraçado, ele foi mais afoito do que eu, como deveria ter sido todo o tempo e suas mãos apressadas abriram o envelope lacrado com urgência, como se do que estivesse dentro dependessem suas vísceras, suas horas finais de vida.
"Sei o que vocês procuram. Mas não vão achar mais. Libertem-se a tempo!"
--Mais vinho?
Meu amigo agora, o companheiro de tantas eras, aquele que dividira comigo uma criatura maravilhosa, cheia de inverossímeis olhos, de cabelos qual fogo em brasa, de sardas incorruptíveis, curvas que revoluteavam ao menor toque...Ele se entregou ao desespero.
--Ma comme fai! Vafancullo, putana!
--Calma.
Suas veias dilatadas denunciavam sua ira, ele procurou ao redor à guisa de perder-se, talvez achar a causa de sua ira difusa e seus olhos cairam sobre mim.
--Cornutto!
--Ei, menino, qual de nós dois é mais?
Incrédulo, ele me olhou: Por um momento, achei que ia me surrar--e bem o podia fazer, tal o seu tamanho e tão grande era sua raiva; mas algo se esvaziou nele quando falei aquilo! Ele respirou fundo, pegou o copo e propos um brinde.
--Vafancullo, Ragazza Mia!
--Vafancullo.
Caso estranho, esse.


